O campeonato acabou, Lewis Hamilton foi campeão, sua equipe, a Mercedes, também, e não há como contestar as legítimas conquistas. Foram, definitivamente, os melhores. A hora, portanto, é de pensar no ano que vem. Que tal percorrer a preparação de cada uma das nove escuderias confirmadas para alinhar seus carros na etapa de abertura do próximo Mundial, dia 15 de março, em Melbourne, na Austrália? E por que não projetar o que podem fazer na temporada?

A viagem pelas sedes das escuderias está dividida em três partes. Na primeira, apresentada hoje, sobrevoaremos Brackley, sede da supercampeã Mercedes, Enstone, da Lotus, e Silverstoneville, da Force India, todas na Inglaterra. Amanhã, o voo será sobre Maranello, quartel central da Ferrari, na Itália, Milton Keynes, da RBR, na Inglaterra, e Hinwil, na Suíça, onde se encontra a Sauber, do brasileiro estreante Felipe Nasr. No deslocamento final, quarta-feira, veremos Grove, na Inglaterra, base do time que mais cresceu ao longo do ano, a Williams, de Felipe Massa, Woking, da mesma forma na Inglaterra, local das instalações da McLaren, e finalmente Faenza, Itália, da equipe STR.

Antes de navegar pelas principais mudanças realizadas nos times, porém, será importante explicar as diferenças no regulamento. Há alterações significativas, potencialmente capazes de mudar o que a competição mostrou este ano, e curiosamente pouco exploradas pela própria Fórmula 1 para promover o campeonato de 2015. Por exemplo, nas tão discutidas unidades motrizes (motor, turbo compressor e sistemas de recuperação e armazenamento de energia).

Nem todos sabem: já havia um acordo firmado há mais de um ano, quando definiram as últimas regras de 2014, para permitir aos produtores das unidades motrizes, Mercedes, Ferrari e Renault, reverem substancialmente seus projetos para 2015. “Apesar de a Mercedes não concordar com nosso pedido, as regras aprovadas há tempo nos dão liberdade para rever pouco mais de 50% das unidades motrizes atuais, e são áreas de grande importância para o seu desempenho. Podemos dizer que todos terão unidades motrizes quase novas em 2015”, disse o gerente do programa da Renault, Remi Taffin. “Nós tentamos ampliar a lista de componentes possíveis de serem modificados, mas a Mercedes não concordou”, explicou.

Diante de a Renault e a Ferrari terem concebido e produzido unidades motrizes bem menos eficientes que a Mercedes, as duas, apoiadas pelas equipes para quem as fornecem, como RBR e Ferrari, tentaram alterar o regulamento, ampliando os itens que poderiam ser revistos, a fim de poderem se aproximar da Mercedes. Toto Wolff, diretor da escuderia alemã, usou da prerrogativa de responder sim ou não e não concordou com a solicitação dos concorrentes. Seria necessária a unanimidade para rever a regra. Niki Lauda, sócio e diretor da Mercedes resumiu a situação: “A Mercedes trabalhou melhor. As regras eram as mesmas para todos. Por que, agora, temos de ceder à pressão de nossos adversários? Será que se fosse o inverso eles nos autorizariam modificar nosso motor mais do que o regulamento permite? Não creio”, disse o tricampeão.

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Esse é o mais importante esclarecimento visando o que é possível esperar do ano que vem. Ferrari e Renault já trabalham há meses, desde que ficou clara a grande vantagem da Mercedes, no início do ano, nas novas unidades motrizes que terão em 2015. Apesar de a Mercedes também poder desenvolver a sua unidade motriz, a lógica sugere que a margem de melhora de Ferrari e Renault é maior, portanto tudo conspira para que a diferença imposta pela unidade motriz da Mercedes seja menor.

Outro ponto importante a ser destacado quanto a 2015 é o comentário do diretor da Pirelli, Paul Hembery. “Os pneus do ano que vem representam um avanço em relação aos desta temporada, mas também uma volta ao cenário de 2013. Eles serão um pouco mais moles. Some a isso o desenvolvimento da segunda geração dos carros híbridos, que deverá torná-los cerca de um segundo mais rápidos”, o que expõe os pneus a esforços maiores. A velocidade em curva deverá crescer.

Hembery projetou para o GloboEsporte.com o que espera do próximo campeonato: “Vamos ter mais provas com três pit stops”. O número mais elevado de paradas nos boxes introduz uma variável importante no andamento das corridas, as torna menos previsíveis também. Este ano os pneus eram mais duros que em 2013 e quase todas as corridas tiveram dois pit stops.

Não haverá pontuação dobrada na última etapa do calendário de 2015, o GP de Abu Dhabi, programado para ser disputado dia 29 de novembro. A medida foi introduzida este ano, mas não agradou a maioria, com fundamentadas razões. Poderia mascarar seriamente o que as 18 etapas anteriores haviam demonstrado, como a superioridade de Hamilton, com 11 vitórias diante de cinco do tenaz Nico Rosberg, vice-campeão.

Depois do último teste coletivo, dias 25 e 26 de novembro no Circuito Yas Marina, em Abu Dhabi, os carros voltam para a pista, agora, apenas dia 1º de fevereiro, no Circuito de Jerez de la Frontera, no sul da Espanha, para o primeiro treino já com os modelos de 2015. Ficarão em Jerez até dia 4. Haverá, depois, mais duas sessões de testes, apenas, antes da abertura do campeonato. Ambas serão no Circuito da Catalunha, em Barcelona, de 19 a 22 de fevereiro e de 26 e fevereiro a 1.º de março.

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Agora o que cada equipe está fazendo para disputar o Mundial de 2015 em condições melhores que a deste ano.

MERCEDES

A escuderia de Hamilton e Rosberg manteve todos os seus principais integrantes. Ninguém do primeiro escalão saiu, como seria de se esperar, tentados por propostas milionárias dos concorrentes. Assim, o modelo de 2015 está sendo concebido pelo mesmo grupo de engenheiros do ultra eficiente W05 Hybrid deste ano, vencedor de 16 das 19 provas do calendário.

Paddy Lowe, diretor técnico, chegou a Mercedes, no ano passado, procedente da McLaren. E desembarcou depois de Ross Brawn criar a estrutura vencedora que a F-1 viu este ano. Brawn deixou a competição para, aos 60 anos, aproveitar a vida. Fez fortuna na F-1 com os sete títulos de Michael Schumacher, na Benetton e na Ferrari. Recusou novo convite da Ferrari.

Ao lado de Lowe estão o italiano Aldo Costa, ex-Ferrari, diretor de engenharia, Geoff Williams, ex-RBR, responsável pela aerodinâmica, e Andy Cowell, o cobiçado engenheiro diretor das unidades motrizes da Mercedes. A Ferrari lhe fez uma oferta irrecusável. Cowell, compensado pela Mercedes, não saiu. São eles que coordenam os seus grupos de técnicos no projeto do ano que vem. É provável que o W06 Hybrid de 2015 tenha poucas modificações em relação ao atual, muito mais veloz, equilibrado e confiável que o carro dos adversários. Com a liberdade do regulamento quanto ao desenvolvimento das unidades motrizes para 2015, Cowell trabalha na evolução da já eficientíssima PU106 A Hybrid, de 145 quilos de peso mínimo e dos dois sistemas de recuperação de energia, MGU-K, cinética, e MGU-H, térmica. Hoje disponibiliza cerca de 720 cavalos de potência. Virá ainda melhor.

Além do avanço do chassi e da unidade motriz, a Mercedes terá Hamilton e Rosberg ainda mais maduros depois da temporada deste ano. A concorrência intensa, em todos os níveis – técnico e psicológico -, com certeza os transformou em pilotos mais completos. Desde já é a maior candidata ao título de 2015, de pilotos e construtores.

FORCE INDIA-MERCEDES

A equipe de origem indiana e baseada na Inglaterra luta, primeiro, para dispor de um orçamento minimamente compatível com as necessidades de uma escuderia para disputar o campeonato com chances de marcar pontos em 2015. Será bem mais difícil com o esperado avanço de RBR, Ferrari e Lotus. Pagar pouco mais de 20 milhões de euros para a Mercedes pelo uso da sua unidade motriz é um peso relevante, como é para a Lotus e no caso da Sauber, para a Ferrari. Vijay Mallya, sócio e diretor do time, manteve os dois bons pilotos, Nico Hulkenberg e Sergio Pérez. Assim como o grupo técnico coordenado pelo experiente Andrew Green. Mas foram os mesmos engenheiros que se perderam no desenvolvimento do carro, este ano, e fizeram a Force India cair de produção.

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Como a Marussia não mais existe, a Caterham caminha pelo mesmo caminho e a Lotus-Mercedes deverá bem mais eficaz em 2015, a Force India provavelmente lutará com Sauber e STR num grupo separado, mais para o fim do grid. Lá na frente deverão estar Mercedes, RBR, Williams, Ferrari e depois de algumas etapas talvez a McLaren.

LOTUS-MERCEDES

A perspectiva para 2015 é oposta ao que os resultados deste ano indicam. Em 19 etapas, Romain Grosjean e seu companheiro, Pastor Maldonado, marcaram pontos três vezes apenas, dois oitavos lugares com o francês, Espanha e Mônaco, e um nono com o venezuelano, Estados Unidos. No total, foram 10 pontos, oitava colocada. Em 2014 foram 315, quarta.

Em conversa com o GloboEsporte.com, Grosjean explicou que o grupo de engenheiros coordenado pelo inglês Nick Chester, diretor técnico, descobriu apenas no GP da Bélgica, em agosto, um problema crônico de aerodinâmica. E para solucioná-lo seria necessário reprojetar a maior parte do modelo E22-Renault, daí a Lotus abandonar o desenvolvimento do carro para se concentrar no monoposto de 2015.

O mau campeonato este ano tem grande relação com o fato de Raikkonen estar vencendo corridas, no fim do ano passado, e a Lotus ter ainda chance de vê-lo campeão. A explicação é do diretor de operações, o conceituado Alan Permane. O novo regulamento exigia muito mais investimento e atenção da escuderia. Eles se concentraram muito no desenvolvimento do E21 de 2013. Havia, também, dificuldades financeiras, as mesmas que agora acompanham a Lotus.

Este ano também o time sentiu muito a perda de seus principais personagens, como a dupla de projetistas, James Allison e Dirk de Beer, para a Ferrari, e do diretor geral, Eric Boullier, para a McLaren. A Lotus utilizou esta temporada para entrosar a nova formação e agora, mais adaptados, todos juntos trabalham no E23-Mercedes que Grosjean e Maldonado vão pilotar em 2015. A troca da unidade motriz da Renault pela da Mercedes deve representar uma ajuda para o crescimento da Lotus.

A perspectiva da equipe é utilizar a imponente estrutura que tem em Enstone, próxima de Silverstone, e que fez Raikkonen lutar pelo título em 2012 e 2013, para produzir um carro, em 2015, muito melhor que o deste ano. “No mínimo levar nossos pilotos a lutar pelos pontos com regularidade, quando não pelo pódio.” Não há exagero na projeção de Gérard Lopez, empresário de Luxemburgo, de origem espanhola, sócio e diretor da Lotus. Desde que, claro, equacione a falta de dinheiro da organização e encontre uma solução para ao menos atenuar os problemas.

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