Quando o calendário virou de 2013 para 2014, a direção do UFC já sabia que o novo ano seria difícil, já que não poderia contar com seus dois maiores astros até então, Anderson Silva e Georges St-Pierre, o primeiro afastado por uma das lesões mais impressionantes em luta na história da companhia, e o segundo afastado por decisão própria. Mesmo assim, a organização decidiu não recuar nos seus ambiciosos planos para os 12 meses seguintes, com quase 50 eventos programados e novos passos na sua expansão global. O que a empresa não esperava era que seus astros restantes fossem retirados de ação não só por lesões, mas também por escândalos de doping que abalaram a reputação do esporte.

Três dos principais nomes do MMA mundial, Vitor Belfort, Wanderlei Silva e Chael Sonnen, eram parte central do plano do UFC para 2014. Vindo de um 2013 devastador, Belfort enfrentaria o campeão dos pesos-médios, Chris Weidman, no tradicional evento do feriado americano de Memorial Day (dia em homenagem aos veteranos de guerra dos EUA), em maio, enquanto Silva e Sonnen resolveriam uma antiga rivalidade em julho, no também tradicional torneio do Dia da Independência dos EUA. Nenhum dos três lutaria em 2014, e os dois últimos anunciaram suas aposentadorias após uma série bizarra de acontecimentos envolvendo exames antidoping.

Tudo começou em fevereiro, quando Vitor Belfort foi testado de surpresa pela Comissão Atlética do Estado de Nevada (NSAC), agência reguladora de seu duelo contra Weidman. Semanas depois, a comissão votou pelo fim das isenções para uso da terapia de reposição de testosterona, o famigerado TRT, tratamento que Belfort, Sonnen, Dan Henderson e outros usavam sob o pretexto de compensar deficiências na produção natural do hormônio. Meses depois, foi revelado que o exame do lutador brasileiro apontou níveis de testosterona acima do normal, o que teria motivado a decisão da NSAC. Belfort foi retirado do combate com Weidman para ter tempo de se adaptar ao novo regulamento; como ainda não havia pedido pela licença de lutador em Nevada, o carioca não foi suspenso, mas a comissão condicionou sua liberação a uma submissão a exames antidoping sem aviso até sua luta contra Weidman, remarcada para dezembro e posteriormente adiada para fevereiro de 2015 por causa de uma lesão sofrida pelo americano.

A mudança nas regras afetou Sonnen, que apelou a uma série de outras substâncias proibidas pela NSAC para compensar pela ausência do TRT. Em 24 de maio, a comissão enviou coletores para testar de surpresa tanto o americano quanto Wanderlei Silva. O brasileiro fugiu do exame; alegou que estava tomando um diurético, substância proibida, para lidar com os efeitos colaterais de remédios que tomava para se recuperar de uma lesão na mão, e se assustou com a realização de um teste antidoping surpresa, algo novo em sua carreira. Sonnen se submeteu ao exame e foi flagrado com duas substâncias proibidas; semanas mais tarde, foi testado de novo e flagrado com mais outras três substâncias proibidas. Ambos foram suspensos pela comissão: Sonnen, por dois anos; Silva, pelo resto da vida – o brasileiro está recorrendo na Justiça. Os dois lutadores anunciaram suas aposentadorias do MMA após o escândalo – Wand aproveitou para lançar uma campanha contra o UFC, pedindo melhores salários e condições de trabalho para os lutadores.

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Os três não foram os únicos flagrados em exames antidoping no ano. As comissões atléticas, lideradas por Nevada, ampliaram a realização de testes surpresa e obtiveram bons resultados. Robert Drysdale, Kevin Casey, Louis Gaudinot, Ali Bagautinov, Piotr Hallmann e Brian Ortega foram alguns dos lutadores flagrados em exames neste ano. Diretor de assuntos regulatórios do UFC, Marc Ratner revelou que o UFC deve lançar um programa de controle antidoping em 2015 para ajudar a “limpar” o esporte. A organização, porém, falhou quando atuou como sua própria agência reguladora, no “UFC: Bisping x Le”, em Macau, na China, em agosto. Na ocasião, o vietnamita Cung Le foi flagrado num exame pós-luta com níveis elevados de GH. Todavia, Le contestou o resultado, apontando erros na condução do teste por parte de um laboratório independente em Hong Kong contratado pelo Ultimate, e a companhia acabou rescindindo sua punição por “falta de evidência conclusiva”.

Mau comportamento fora do cage

Para os fãs de MMA, um dos maiores desafios sempre foi combater a noção dos detratores do esporte de que os lutadores são meros “brigões” e “criadores de confusão”, e convencê-los de que são, na verdade, artistas marciais. Em 2014, foi mais difícil fazê-lo, e a reputação do esporte foi manchada pelo mau comportamento de alguns de seus maiores astros.

Wanderlei Silva e Chael Sonnen também estiveram envolvidos num desses maus momentos. Em janeiro, os dois brigaram fora do octógono, no set de filmagem do reality show The Ultimate Fighter Brasil – Em Busca de Campeões, no qual atuaram como treinadores de lutadores aspirantes ao UFC. Mais tarde, foi o campeão dos pesos-meio-pesados, Jon Jones, quem foi às “vias de fato” com Daniel Cormier, desafiante número 1 da categoria, durante um evento de divulgação do UFC 178, em julho. Os dois foram multados pela NSAC.

Piores que as brigas foram os casos de violência doméstica envolvendo lutadores. O brasileiro Thiago Silva foi demitido do UFC após ser preso em fevereiro, acusado de invadir uma academia, ameaçar pessoas com armas de fogo e de resistir à prisão. O caso foi arquivado por falta de cooperação da querelante, sua ex-esposa, Thaysa Kamiji, e Silva foi brevemente readmitido; todavia, após Thaysa divulgar vídeos do lutador a ameaçando com uma arma, o UFC voltou a demití-lo. Dois companheiros de equipe de Silva, Anthony Johnson e Michael Johnson, também passaram boa parte do ano suspensos enquanto seus casos de violência doméstica eram investigados. O peso-pena Will Chope, por sua vez, foi demitido no dia em que deveria estrear no UFC, contra o brasileiro Diego Brandão, após a organização descobrir que o ex-militar havia sido expulso das Forças Armadas dos EUA por agredir sua esposa e ameaçá-la com uma faca.

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Lesões desfalcam cards

O doping atrapalhou, o mau comportamento fora do cage também, mas a grande “pedra no sapato” do UFC em 2014 foram novamente as lesões. Assim como em 2012, a organização foi forçada a cancelar um evento, o UFC 176, programado para 2 de agosto, quando o campeão dos pesos-penas e principal destaque do card, José Aldo, se lesionou às vésperas do combate contra Chad Mendes. O UFC 177, no dia 30 de agosto, foi o mais afetado por lesões: apenas oito lutas compuseram o card, e a principal, a revanche entre TJ Dillashaw e Renan Barão, teve de ser mudada na véspera do evento após Barão desmaiar e bater a cabeça durante o processo de corte de peso.

Devido a lesões, Jon Jones, campeão dos pesos-meio-pesados e maior astro da organização após Anderson Silva e Georges St-Pierre, só lutou uma vez em 2014, em abril, quando derrotou Glover Teixeira. O mesmo aconteceu com Chris Weidman, campeão dos pesos-médios, que só lutou em julho contra Lyoto Machida, e com Anthony Pettis, campeão dos pesos-leves, que enfrentou Gilbert Melendez em dezembro. Cain Velásquez, campeão dos pesos-pesados, foi forçado a desistir do que seria sua única luta no ano, a estreia do UFC no México, em novembro, por causa de uma lesão no joelho. Para aplacar a decepção do público mexicano, que tem Velásquez como maior ídolo, o Ultimate criou um cinturão interino, conquistado por Fabricio Werdum ao derrotar Mark Hunt.

Transição brasileira

O Brasil terminou 2014 com o mesmo número de títulos do UFC que começou: dois, sendo um linear e um interino. O linear segue sendo de José Aldo, campeão dos penas, que defendeu o cinturão duas vezes no ano. O interino mudou. Primeiro, era Renan Barão, que foi promovido a campeão linear dos pesos-galos ainda em janeiro quando Dominick Cruz sofreu uma lesão e foi impedido de fazer a luta de unificação dos cinturões. Barão, porém, não teve nem seis meses como campeão absoluto: em maio, sofreu sua primeira derrota em nove anos ao ser nocauteado por TJ Dillashaw no evento principal do UFC 173, numa das maiores zebras do ano. Agora, o gaúcho Fabricio Werdum é o campeão interino dos pesos-pesados e aguarda o retorno de Velásquez para unificar os cinturões.

Se pareceu que o Brasil “estagnou” em relação aos títulos do UFC, o país segue como uma das potências do MMA mundial, e seus lutadores avançaram na transição entre gerações. No Ultimate, há pelo menos dois brasileiros no top 15 em nove das 10 categorias, e em pelo menos três um deles é o próximo desafiante número 1. No Bellator, dois brasileiros se sagraram campeões em 2014, Douglas Lima e Patrício Pitbull, mesmo número que conquistou títulos no World Series of Fighting (WSOF), Rousimar Toquinho e Marlon Moraes. No One FC, Bibiano Fernandes manteve o cinturão dos pesos-galos com duas defesas de cinturão, e Adriano Moraes conquistou o título peso-mosca. No Invicta FC, principal organização de MMA feminino no mundo, Hérica Tibúrcio levou o cinturão do peso-átomo.

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Disputas financeiras

O fim de ano viu o UFC anunciar um inédito acordo de exclusividade com a Reebok, marca de roupas e acessórios esportivos, para produzir seus uniformes, nos moldes dos contratos da NBA com a adidas e da NFL com a Nike. A partir de julho, todos os lutadores entrarão com uniformes da companhia, e terão direito a cotas de patrocínio baseadas em suas posições no ranking do UFC, além de royalties e porcentagens na venda de produtos com seu nome. Por outro lado, eles não poderão mais levar as marcas de seus patrocinadores pessoais para dentro do octógono – nem nos shorts de luta, nem nos banners que ficam expostos atrás deles, na parede do cage, quando são apresentados.

A novidade teve recepção mista. Enquanto alguns comemoraram o acordo histórico, outros questionaram o quanto iria para os lutadores e se eles não seriam prejudicados com o fim da presença dos patrocinadores pessoais no uniforme. A Reebok, que já patrocinava Anthony Pettis e Johny Hendricks, avançou e assinou contratos com Jon Jones e Ronda Rousey, campeã dos pesos-galos femininos, além de negociar com Anderson Silva, ex-Nike.

Também em dezembro, um grupo de lutadores, liderado por Cung Le, Jon Fitch e Nate Quarry, entrou com uma ação milionária contra o UFC, acusando-o de monopólio e de impedir que os atletas pudessem receber seu valor justo de mercado ao eliminar a competição. O Ultimate prometeu combater “vigorosamente” a ação na Justiça.

Números

46 – eventos realizados pelo UFC em 2014

7 – eventos realizados pelo UFC no Brasil em 2014

4 – vezes em que o UFC realizou eventos em dois países diferentes no mesmo dia: 31 de maio no Brasil e na Inglaterra, 28 de junho na Nova Zelândia e nos EUA, 23 de agosto na China e nos EUA, e 4 de outubro na Suécia e no Canadá

503 – lutas promovidas pelo UFC em 2014

4v-3d – desempenho dos brasileiros em disputas de cinturão do UFC em 2014

85v-69d-1e-2NC – desempenho dos brasileiros em lutas contra estrangeiros no UFC em 2014

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