Não é que a “maionese desandou”, mas a receita precisa ser revista. Os ingredientes – sucesso de outrora -, permanecem os mesmos, porém o sabor não é igual. Campeão dos últimos seis torneios que disputou, o Flamengo passa por dificuldades dentro de quadra e aparenta estar passando por um processo de reinvenção. Com um elenco ainda recheado de estrelas do basquete sul-americano, quatro das quais estiveram presentes no Mundial da Espanha (dois pelo Brasil e outros dois pela Argentina), a equipe não consegue repetir e impor seu estilo de jogo e intensidade que dominavam a maioria dos adversários, muitos com certa facilidade. As cinco derrotas nas 15 primeiras rodadas deste NBB 7 comprovam o momento irregular. Na temporada passada, foram apenas três no primeiro turno. Na retrasada, nenhuma. O terceiro lugar ao lado do Minas está longe de ser uma catástrofe, mas, para quem se acostumou a viver no topo da tabela, é algo que incomoda e preocupa.

Em boa parte do segundo tempo, na vitória de quinta-feira sobre o Paulistano por 97 a 81, os cariocas conseguiram repetir o que faziam com maestria até o início desta temporada, entretanto, ainda é possível ver muitas oscilações ao longo dos 40 minutos. Apagado nos dois quartos iniciais, Walter Herrmann despertou nos períodos finais, após começar o duelo no banco, dando lugar a Olivinha. Os 29 pontos sofridos no primeiro quarto dão a ideia de uma defesa com problemas.

A comparação das estatísticas atuais com as das duas últimas temporadas pode ajudar a entender a fase inconstante. A questão do sistema defensivo é a que mais chama a atenção. Prioridade do técnico José Neto, a defesa rubro-negra vem falhando em demasia e impossibilitando a receita ideal básica do basquete: marcação pressão, contra-ataque rápido e jogo de um contra um. Mas existem outros fatores. Confira.

Sistema defensivo pouco intenso

Ao fim da maioria das partidas deste NBB foi possível ouvir pela boca do técnico José Neto sua preocupação com o seu sistema defensivo. Nem mesmo a pontuação abaixo da casa dos 80 em quatro dos 15 jogos faz o treinador coçar mais a cabeça do que sua defesa. Ao tomar 29 pontos para o Paulistano no primeiro quarto do último jogo, ele chegou a bradar: “29 não pode”. Essa mesma defesa que era a terceira melhor da competição na última edição e decisiva nos jogos mais importantes da temporada 13/14 contra Pinheiros (Liga das Américas) e Paulistano (NBB), agora é a quinta mais vazada, com média de 82,9 pontos sofridos.

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A falta de uma marcação mais intensa faz com que o Flamengo não consiga impor o que tinha de melhor: contra-ataques rápidos e jogo no mano a mano, o chamado um contra um. Ao sofrer muitas cestas, o quinteto tem que atacar com a defesa adversária bem postada, no cinco contra cinco. Os dois anos do time atuando juntos fazem com que os oponentes saibam como marcar as principais peças rubro-negras.

– A característica defensiva do time mudou um pouco em relação à temporada passada. Não tivemos tanto tempo para treinar coletivamente nossa equipe, e isso influi no sistema defensivo. Infelizmente, estamos tendo que fazer isso durante a temporada. Mas tínhamos essa consciência desde o momento que soubemos que teríamos a disputa do Mundial e os jogos da pré-temporada da NBA – explicou o técnico José Neto.

Excesso de chutes de três

Efeito colateral de uma defesa fraca é que, bem marcado, o Flamengo muitas vezes apela para os chutes de três, nem sempre totalmente equilibrado e com o rebote ofensivo postado debaixo da tabela. Das cinco derrotas do time no NBB, em três delas o aproveitamento foi abaixo dos 40% no quesito. O pior desempenho aconteceu contra o Bauru na derrota da última terça-feira. Das 30 bolas tentadas, apenas sete caíram (23,3%). Na vitória sobre o Paulistano, o clube meteu 13 bolas de fora, mas arriscou 34 (38.2%). Contudo, é o terceiro mais eficiente da competição, somente atrás de Limeira e Mogi no percentual. Neto já salientou que este tipo de fundamento é um recurso e não o carro-chefe.

Mudança tática

A única troca de peça em relação à temporada passada dentro do quinteto titular do clube foi a entrada de Walter Herrmann na vaga de Olivinha. O estilo diferente entre os alas-pivôs faz com que o Rubro-Negro tenha mais opção de fora do que de dentro, já que o argentino pode atuar como um lateral (posição 3), enquanto o brasileiro povoa mais a área pintada, apesar de ter um bom chute de fora. Em seu terceiro mês no Brasil, o ex-jogador do Charlotte Bobcats e Detroit Pistons ainda precisa ser mais regular. Nesta quinta-feira diante do Paulistano, ele superou a atuação apagada do primeiro tempo e desequilibrou na segundo, fechando o duelo com 19 pontos.

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rebotes

Absoluto no NBB 6, o rebote do Flamengo não reina tão tranquilo nesta edição. Se nos 32 jogos da temporada regular de 13/14, o time foi o terceiro melhor no fundamento, só superado pelos rivais por nove vezes, sendo quatro delas quando a primeira posição geral já estava assegurada, atualmente, passados 15 jogos, o Rubro-Negro é o oitavo e em seis rodadas não conseguiu ter mais rebotes do que o adversário. Um fator para a mudança de padrão pode ser a ida de Olivinha, maior reboteiro da história do NBB, para o banco. Neto discorda.

– Não acho que a presença do Herrmann no lugar do Olivinha influencie nos nossos rebotes e tampouco na defesa. Não dá para ficar comparando o time desse ano com a temporada passada. São situações hipotéticas, e é difícil falar em cima de hipóteses. Temos que comparar nossa equipe com os rivais de hoje. Mesmo mantendo a base da temporada passada, nossa exigência é outra, muito maior, os adversários mudaram, e o campeonato é outro. Existem várias razões para nossa queda de rendimento, mas não tem um porquê – ressaltou.

questão física

Há uma temporada e meia, o atual elenco ganha todos os campeonatos possíveis (Carioca, NBB, Liga das Américas, Copa Intercontinental), com viagens longas, como para o México, que vai se repetir na semana que vem, e jogos em intervalo de tempo menor. Neste caso, o desgaste já seria normal, mas para os rubro-negros a preocupação é maior. Dos cinco titulares, quatro participaram do Mundial de seleções na Espanha em setembro, quando deveriam estar de férias. Três deles, Marcelinho (39), Herrmann (35) e Marquinhos (30), estão acima dos 30 anos. No meio do caminho, uma excursão de duas semanas para os EUA, onde enfrentaram três franquias da NBA e com uma intensidade de jogo muito maior do que estão acostumados. Para completar, faz muito calor no Rio de Janeiro e, com exceção da Arena da Barra, os ginásios não têm ar-condicionado. Se o elenco é apenas o oitavo mais velho do NBB (26,4 anos), o quinteto titular está entre os de maior idade, com média de 30,8 anos.

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Queda de Nico Laprovittola

O sexto e último ponto destacado é a questão individual dos jogadores. Enquanto alguns repetem o que fizeram no ano passado e outros estão ainda melhores, como no caso de Marquinhos, um chama atenção pela abrupta queda em seu rendimento. Responsável principal por organizar as jogadas do time, Nico Laprovittola está muito abaixo do basquete que encantou a todos na temporada anterior. Tímido ofensivamente e desconcentrado defensivamente, o armador é considerado por muitos o termômetro do Flamengo. Há quem garanta que se ele não voltar a render o que sabe, a equipe não terá as glórias anteriores. Sua apresentação diante do Paulistano retrata o cenário. Ao anotar 14 pontos, dar nove assistências e pegar seis rebotes, ele realizou sua melhor partida na temporada na, talvez, mais convincente vitória da equipe neste NBB.

Nesta edição, sua média de pontos caiu (14.8 para 9.1), assim como a minutagem em quadra (32 para 25.6). Porém, o “hermano” teve uma leve subida no aproveitamento de chutes (49,8 para 50.6). Ele aumentou a média de assistências (4.9 para 5.2) e comete um pouco mais de erros (3.0 para 3.4). Sua eficiência de valorização despencou de 15 para 11.4.

O mau momento do terceiro armador da seleção argentina no Mundial é reconhecido por José Neto, além do próprio jogador.

– O armador é o condutor da equipe e, é lógico que, se você tem um jogador importante como ele que não está num bom momento, o time todo cai junto. Mas aconteceria a mesma coisa se o Marcelo estivesse mal, ou o Marquinhos, o Herrmann, o Jerome (Meyinsse). O problema é que o armador chama mais atenção porque ele é o condutor. Mas ele contribuiu muito mais desde que chegou do que decepcionou. Foi um jogador fundamental nas conquistas que tivemos na temporada passada. Ele é um jogador experiência, maduro e sabe que não vive um bom momento. Tem consciência disso.

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