Nem todos que gostam de F1 se ativeram à decisão de Charlie Whiting, delegado da FIA, de manter para a Honda, este ano, a mesma proibição estabelecida em 2014 para Mercedes, Ferrari e Renault de não poderem desenvolver suas unidades motrizes. A medida atinge ainda mais o piloto considerado por muitos como o mais completo em atividade, Fernando Alonso.

Curiosamente, o espanhol campeão do mundo em 2005 e 2006, pela Renault, decidiu deixar a Ferrari e aceitar o desafio de competir pela McLaren-Honda, este ano, por acreditar que suas chances de sucesso seriam maiores. O que o aguarda, no entanto, ao menos a curto prazo, parece ser exatamente o oposto, em especial agora com a liberdade concedida a Mercedes, Ferrari e Renault de poderem modificar suas unidades motrizes ao longo de 2015. Já a Honda terá a sua unidade homologada até 28 de fevereiro e, em essência, deverá mantê-la assim até o fim da temporada.

Há informações de bastidores na F1 de que Alonso, seu companheiro, Jenson Button, campeão do mundo de 2009, pela Brawn GP, Ron Dennis, sócio e diretor do Grupo McLaren, e Eric Boullier, diretor da equipe, estudam a melhor argumentação para tentar convencer Whiting de que sua decisão penaliza demais a Honda, a nova parceira da McLaren.

A regra como está hoje fará com que Alonso e Button muito provavelmente apenas assistam aos adversários lutarem pelas primeiras colocações. Mercedes, Ferrari e Renault compreendem bem melhor, atualmente, as exigências das novas unidades motrizes híbridas da F1, depois de 19 etapas e oito dias de testes privados, em 2014, e as estão modificando para o campeonato deste ano, programado para começar dia 15 de março na Austrália. O regulamento permite rever 32 áreas (48%) das 66 que em comum acordo todos estabeleceram para as unidades motrizes.

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O mais importante, contudo, é que Mercedes, Ferrari e Renault poderão continuar desenvolvendo-as ao longo do ano. E a Honda não, segundo o comunicado de Whiting.

Assim, os japoneses da Honda entram na disputa lutando contra concorrentes que não somente contam com um ano de experiência para rever suas unidades motrizes como dispõem da possibilidade de torná-las ainda mais eficientes à medida que a temporada avança. Prerrogativa proibida à representante do Japão.

É uma diferença abissal de perspectiva. Alonso e Button vão contar com unidades motrizes sem o ano de experiência de Mercedes, Ferrari e Renault e sem que os japoneses possam modificá-las em seguida a detectarem o que pode ser feito para melhorá-las. “Considero justo e igualitário a Honda homologar sua unidade motriz até 28 de fevereiro”, afirmou Whiting.

É contra isso que, nesse momento, os pilotos da McLaren-Honda, Dennis e Boullier lutam. Defendem que a decisão de Whiting apenas supostamente garante os mesmos direitos a todos. As circunstâncias são outras com a liberdade de Mercedes, Ferrari e Renault poderem desenvolver as suas unidades motrizes.

Do jeito que está, tudo o que a F1 não terá, em 2015, é exatamente esse espírito “igualitário” defendido por Whiting ao restringir os trabalhos da Honda.

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Originalmente, Mercedes, Ferrari e Renault deveriam, a exemplo da Honda, homologar suas unidades motrizes modificadas até 28 de fevereiro deste ano. Mas, ao contrário do que está escrito no texto do regulamento de 2014, que estabelecia a data e as três cumpriram, no texto deste ano ficou apenas implícito que seria 28 de fevereiro, não especificado.

Maurizio Arrivabene, da Ferrari, e Christian Horner, RBR, orientados pelos advogados de suas equipes, procuraram Whiting a fim de lhe dizer que não acatariam a suposta data. Poderiam levar o caso aos tribunais esportivos, com ótimas chances de ganhar, se a FIA não os atendesse. A RBR recebe motores da Renault e a exemplo da Ferrari viu nessa falha do texto do regulamento a chance de tentar melhorar suas unidades motrizes a fim de enfrentar a Mercedes, autora do trabalho mais eficiente em 2014, uma das principais razões de dominar o campeonato do ano passado, com 16 vitórias em 19 etapas.

Whiting não teve saída. Aceitou a argumentação procedente de Ferrari e Renault, contra os interesses da Mercedes que, claramente, saiu prejudicada com o episódio. Ao estender o prazo para as três trabalharem as suas unidades motrizes, sem especificar a nova data de homologação, Whiting também anunciou a restrição a Honda. Mas não é impossível que Alonso, Button, Dennis e Boullier consigam algumas conquistas, as limitações à montadora japonesa não sejam tão severas.

A não contestação da FIA à argumentação da Arrivabene e Horner, de que poderiam desenvolver as suas unidades motrizes além de 28 de fevereiro, por mais paradoxal que possa parecer atende também os interesses da FIA. É importante para a entidade que mais de uma escuderia vença as corridas. Será saudável para a F1, e para os interesses das empresas que investem muito dinheiro no evento, que mais times se sirvam do bolo das vitórias.

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Historicamente a FIA age dessa forma. Mesmo quando não há uma saída jurídica, a exemplo da proibição casuística do uso do amortecedor de massa da Renault, em 2006, e do Fric, sistema que interligava as suspensões dianteira e traseira, melhor desenvolvido pela Mercedes, a partir do GP da Alemanha de 2014. O objetivo é tentar evitar de uma escuderia ganhar tudo.

Tendo ainda um argumento, como o explorado por Arrivabene e Horner, melhor ainda para a FIA. Cai como uma luva. Está amparada em algo sólido. Ainda que a Mercedes também possa continuar desenvolvendo a sua unidade motriz, não há dúvida de que representa uma chance para Ferrari e Renault reduzirem a diferença de performance das suas unidades para a alemã.

E é por causa dessa permeabilidade seletiva da FIA que Alonso, Button, Dennis e Boullier talvez consigam algo. E se a FIA pensar grande também, dará o exemplo a outras montadoras que se interessarem em desenvolver suas unidades motrizes para a F1. Os recém-chegados não serão desmedidamente penalizadas com proibições como a agora estabelecida, até o momento, para a Honda.

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