O psicólogo e pesquisador Larry D. Rosen, da Califórnia, considerado uma das maiores autoridades mundiais quando o assunto é a relação entre o homem e a tecnologia, falou ao Diário da Região sobre o assunto. Rosen faz um alerta ao risco das pessoas se tornarem mentalmente doentes em sua relação narcísica e obsessiva-compulsiva com seus gadgets.

Autor de livros como “Rewired” e “iDisorder”, ainda sem tradução no Brasil, Rosen tem avaliado com certa preocupação o uso que tem sido feito dos equipamentos tecnológicos. Presidente do Departamento de Psicologia da Universidade Estadual da Califórnia, o estudioso é conhecido como o psicólogo da tecnologia. Rosen alerta pais e mães sobre os riscos de se tornar um viciado em redes sociais.

Por outro lado, também destaca a importância das novas mídias desde que bem utilizadas. Se, por um lado, Rosen reconhece a importância de algumas pesquisas que já apontam para a relação de transtornos psíquicos em quem usa rede social em excesso, também aponta para um risco menor de alteração no humor naqueles que interagem com os amigos por este meio ao longo do dia. Ou seja, apesar de crítico, Rosen não é definitivo quando aborda o assunto e acredita que novas pesquisas devam ser realizadas antes de se demonizar as redes sociais.

Qual sua opinião a respeito da relação dos jovens com a tecnologia?

Larry Rosen – Estamos vivendo uma época em que as opções tecnológicas estão se expandindo rapidamente. Me preocupa, particularmente, as várias maneiras encontradas para a comunicação eletrônica, desde os modos mais tradicionais, como o telefone e o e-mail, às formas mais recentes, como mensagens de textos e a utilização das redes sociais disponíveis. A diversidade é tanta que é quase impossível se contar. O que vemos agora é que as pessoas estão cada vez mais se sentindo “obrigadas” a estar o tempo todo ligadas a essas plataformas. Basta ver como os mais jovens ficam checando seus celulares a cada 15 minutos ou menos.

Acredita que tantos estímulos estão afetando o comportamento humano?

Rosen – As pessoas dormem com seus aparelhos ligados ou no vibrador, criando um estado constante de ansiedade, a ponto de terem a impressão de que seus telefones estão vibrando, mas quando o retiram do bolso ou da bolsa não há nenhuma mensagem ou notificação. Isso é apenas uma disparada de sinais aleatórios dos neurônios, que levam a uma “coceira” e não a um alerta.

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Isso acontece muito com as pessoas que não largam seus smartphones por nada. Para muitos jovens, seus celulares deixaram de ser carregados no bolso ou na bolsa para estar sempre em uma das mãos, à espera de uma chamada ou uma notificação. Pela perspectiva de nosso cérebro, as pessoas estão tendo esses comportamentos para remover os neurotransmissores que dão sinais de ansiedade e estresse, como o cortisol.

Como vê o fato das crianças terem acesso a computadores ainda na primeira infância? Acredita que isso tem se refletido no fato das novas gerações serem mais hiperativas?

Rosen – Essa é uma pergunta bem interessante. É como perguntar quem veio primeiro: o ovo ou a galinha. A sensação que tenho, pelas pesquisas, é que, pelo fato de haver muitos tipos de tecnologias monitoradas o tempo todo, somos vistos como se estivéssemos hiperativos, mas na verdade estamos apenas tentando estar em dia, acompanhando as diversas coisas que checamos o tempo todo, textos, Facebook, aplicativos, e-mails, Instagram. Estamos tendo de verificar tudo, o tempo todo, para nos assegurarmos de que não estamos perdendo nada que seja importante. Algumas pesquisas dão o nome disso de FOMO: Fear of Missing Out (medo de ficar por fora, na tradução para o português).

Por que algumas pessoas parecem ficar em depressão quando não estão em contato com seus aparelhos celulares, ligados em alguma rede social?

Rosen – Houve um certo interesse em um tópico conhecido como a depressão do Facebook, que afirma que quando vemos todas as postagens positivas de nossos amigos se divertindo muito mais do que nós, ficamos deprimidos. Há pouca evidência sobre isso, mas sempre existe alguma, e para muitas pessoas, isso é um quadro preocupante. Já as nossas pesquisas mostraram que aqueles que possuem mais amigos no Facebook e que falam mais ao telefone no dia a dia, na verdade, mostraram ter menos sintomas tanto de distimia, quanto de quadros de depressões mais profundas.

Entretanto, aqueles que usam o Facebook com? mais frequência, que têm mais amigos adicionados e que regularmente atualizam seus status com novas postagem e fotos apresentaram um maior número de sintomas de doenças com base na ansiedade, tais como o narcisismo, o transtorno de personalidade antissocial e o transtorno obsessivo-compulsivo.

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E aqueles que utilizam demasiadamente o Facebook também apresentaram maiores sintomas de transtornos maníacos, sendo a metade de bipolares e a outra de depressivos. Assim você pode ver que é bastante complicado, mas algumas boas pesquisas estão sendo feitas para tentar entender como a tecnologia em geral, e em especial as redes sociais, estão afetando o estado psicológico das pessoas.

Como será o futuro daqui para frente com a presença de robôs cada vez mais interagindo com humanos?

Rosen – Eu fiz uma promessa pessoal de não prever o futuro, porque toda vez que eu tento fazê-lo, eu me engano completamente. Por exemplo, eu nunca esperava que um?site?como o Facebook poderia chegar a 1,3 bilhão de usuários ativos no mundo todo e certamente nunca imaginei que um dia estaríamos todos carregando um poderoso computador no bolso. A tecnologia está mudando tão rapidamente que qualquer previsão hoje daria errado no futuro. Contudo, eu acredito que vamos continuar a operar a partir de um estado de ansiedade, que irá-nos conduzir ao uso excessivo da tecnologia.

Em se tratando de saúde mental, quando é hora de intervir pra evitar danos definitivos ao cérebro humano?

Rosen – Até agora não há nenhuma evidência de que a tecnologia possa causar qualquer dano ao cérebro. Todas as experiências que vivemos alteram nosso cérebro, tanto pela liberação de neurotransmissores, como pelo crescimento e pela remoção dos axônios e dendritos que são extensões dos nossos neurônios ou células cerebrais nervosas.
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Como a criança pode ser beneficiar sem se prejudicar?

Rosen – Como pais, temos de ser muito cuidadosos para moderar o quanto e quando os nossos filhos podem fazer uso da tecnologia. A Academia Americana de Pediatria recomenda evitar expor a criança com menos de dois anos às telas dos computadores. Mas não vejo isso como algo muito realístico, já que as crianças adoram tocar nas telas de aparelhos tecnológicos e o fazem de forma simples e intuitiva. Essa é a beleza destas tecnologias, uma vez que são tão simples e exigem ações muito naturais, até mesmo para crianças menores.

Quando é favorável o uso da tecnologia?

Rosen – Acredito que os pais devem se ater a algumas regrinhas básicas: Primeiro lugar, a tecnologia não deve ser usada quando há oportunidades de se interagir com outras crianças ou com os adultos. Isso significa não permitir que a criança use o tablet durante o jantar, porque isso vai impedi-las de conversar com os pais. A família precisa desse tempo para aprender uns com os outros. As crianças precisam de muita conversa frente à frente para aprender sobre todas as dicas não verbais que sinalizam as emoções e os sentimentos.

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E sem essas, eles se tornam incapazes de se relacionar eficientemente com os outros. Segundo lugar: as crianças não devem utilizar os aparelhos tecnológicos por um período muito extenso, eu diria que no máximo 30 minutos seguidos, quando menores, e gradativamente se estender para 90 minutos (que é o tempo de duração da maioria dos filmes), quando a criança já estiver entre seus 10 ou 11 anos. As pausas devem ter o dobro do tempo (ou mais) que estiveram em frente ao aparelho.

Por exemplo, se uma criança ficou jogando no celular por meia hora, eu a deixaria sem fazer uso de qualquer tecnologia por pelo menos duas horas. Depois disso, eu acredito que os pré-adolescentes e adolescentes não deveriam usar seus aparelhos tecnológicos por mais de duas horas seguidas. Já para os jovens adultos e os mais velhos, as pausas não precisam ser tão longas – 10 ou 15 minutos,mas eles precisam se envolver em atividades que permitam dar um “reset”, ou seja, que reconfigurem o cérebro ou acalmem a hiperatividade que as tecnologias fomentam. O ideal é participar de atividades físicas, observar a natureza ou conversar com alguém frente à frente, enfim, qualquer atividade que possa tranquilizar o cérebro.

Como o mundo foi afetado pela internet?

Rosen – A mídia social tem estado na vanguarda das revoluções no Oriente Médio e aproximado pessoas que se encontram geograficamente separadas. O fato de eu poder te dar esta entrevista enquanto estou em São Diego, na Califórnia, e você aí no Brasil é um dos resultados positivos. Um outro grande impacto é o fato das informações estarem acessíveis a qualquer um, em qualquer lugar que se tenha acesso à internet. ?As informações já não são mais exclusivas e voltadas apenas para aqueles que podem frequentar uma biblioteca.?Todos nós agora podemos pesquisar informações sobre qualquer tópico a qualquer momento. O mundo se reduziu ao tamanho de uma ervilha em termos de difusão do conhecimento e da comunicação.

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