Depois de oito dias de treinos, quatro em Jerez de la Frontera e outros quatro no Circuito da Catalunha, em Barcelona, estes encerrados neste domingo, já emergiram elementos que permitem supor, com alguma base, embora sem nenhuma certeza, qual o estágio de cada equipe nessa fase da preparação para o campeonato que irá começar dia 15 de março, na Austrália.

Ainda haverá uma última sessão de testes, de quinta-feira a domingo, no mesmo Circuito da Catalunha, e vários times vão introduzir nos seus carros importantes modificações, concebidas a partir dos ensinamentos das experiências iniciais com seus modelos novos. Mais: no próprio GP da Austrália, mais uma vez os carros se apresentarão diferentes, com novos componentes.

Assim, o desempenho de um monoposto pode, facilmente, ser redimensionado com esses avanços que com regularidade lhe serão incorporados até a prova de Melbourne.

Mas se há algo já possível de se dizer a respeito da ordem de forças da F1 é: o modelo W06 da Mercedes, do campeão do mundo, Lewis Hamilton, e do vice, Nico Rosberg, não terá adversários no início da temporada, ao menos em condições normais.

Ainda que os treinos sejam apenas indicativos, nem sempre seguros do que vai acontecer na competição, um dado sugere ser não apenas revelador, mas conclusivo a respeito da maior velocidade, constância e até confiabilidade do W06 da Mercedes.

Vale a pena acompanhar em detalhes o verificado neste domingo na pista catalã e que serviu para, mais uma vez, ratificar a condição de franco favoritismo da Mercedes no começo do Mundial: enquanto o francês Romain Grosjean, com Lotus E23-Mercedes, recorreu aos novos pneus supermacios da Pirelli, mais aderentes, para estabelecer o melhor tempo do dia e de todo o período em Barcelona, 1min24s067, Nico Rosberg com o carro alemão e pneus médios novos fez 1min24s321, ou seja, foi apenas 254 milésimos mais lento.

Na sequência, Rosberg prosseguiu na pista, completou mais cinco voltas, o que provou não estar tão leve, havia mais gasolina no tanque que a necessária apenas para a volta lançada. Já Grosjean registrou seu tempo e regressou aos boxes, muito provavelmente por dispor de combustível somente para aquela volta.

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Para entender a influência da maior massa de gasolina na Mercedes de Rosberg, no traçado espanhol de 4.655 metros a cada 10 quilos de gasolina o piloto perde três décimos de segundo no tempo de volta. Para completar as cinco voltas depois de ter estabelecido o seu tempo com os pneus médios, mais a volta de regresso aos boxes, a Mercedes de Rosberg consumiu 10,2 quilos de gasolina, pois a cada volta nesse circuito os carros gastam, em média, 1,7 quilos de gasolina.

Portanto, essa massa extra roubou da Mercedes cerca de três décimos de segundo, mais ou menos a diferença em favor de Grosjean. Em outras palavras, o tempo do piloto da Lotus com pneu supermacio e o da Mercedes, com médio, foram praticamente os mesmos, descontado o atenuante do combustível a mais de Rosberg.

É possível ir adiante para explicar a vantagem da Mercedes. Entre o pneu supermacio usado por Grosjean e o médio de Rosberg ainda há o macio. O piloto da Mercedes nem mesmo teve de recorrer ao macio para ficar perto do francês da Lotus. Considerando-se que a melhora do pneu médio para o macio foi, em Barcelona, na média, um segundo, e do macio para o supermacio também ficou na casa de um segundo, faz sentido a análise de que Rosberg, na mesma condição da Lotus, simulando uma classificação, seria algo como pelo menos dois segundos mais veloz.

E tanto Lotus quanto Mercedes competem com a mesma unidade motriz da Mercedes. Esses dados todos deixam claro que a superioridade técnica do modelo W06 decorre da supereficiência da unidade motriz alemã, como todos reconhecem, mas também muito em função do rápido e equilibrado chassi usado por Hamilton e Rosberg.

Maior vantagem é no ritmo de corrida

Há muitos fatores, claro, que interferem na definição do tempo de volta. Mas neste domingo, no Circuito da Catalunha, pela primeira vez emergiu um pouco do verdadeiro potencial da Mercedes, ao menos quanto à velocidade do modelo W06. Até agora, mesmo tendo acumulado 4.360,8 quilômetros, 2.076,0 em Barcelona e 2.284,8 em Jerez de la Frontera, a Mercedes ainda não colocou no seu carro, em nenhum momento, os pneus macios. Nos oito dias de testes Hamilton e Rosberg estiveram sempre com os pneus duros ou no máximo médios.

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Adrian Newey, consultor da RBR, está impressionado com a vantagem da Mercedes. Ele comentou que a velocidade numa volta lançada é um dos pontos fortes da equipe alemã, mas depois de acompanhar as simulações de corrida do modelo W06, em Jerez e no Circuito da Catalunha, não se conteve.

– Eles estão muito à frente de todos. É na condição (de corrida) que eles parecem ser muito superiores – espantou-se.

O fato de Rosberg ter ficado a apenas 254 milésimos de segundo de Grosjean, com pneus médios e mais gasolina no tanque, enquanto o piloto da Lotus tinha os supermacios e quase nenhum combustível, apesar de inquietante para os adversários, é menos preocupante que a análise dos tempos de volta quando Hamilton e Rosberg completam séries de 18 a 22 voltas seguidas.

Nessa condição, quase todos os pilotos deixam os boxes com cerca 50 ou 60 quilos de gasolina. Há certa semelhança na condição geral. E a comparação do que registram os pilotos da Mercedes com todos os demais evidencia, de maneira conclusiva, como o modelo W06 é muito mais rápido, além de perder menos performance com o desgaste dos pneus.

E até o problema que parecia ser o seu calcanhar de Aquiles em 2014, a confiabilidade, dá indícios de ter sido resolvido. Os milhares de quilômetros percorridos por Hamilton e Rosberg em Jerez e em Barcelona, sem maiores dificuldades técnicas, atestam sua evolução no aspecto resistência.

Quem mais se aproximou da Mercedes em quilometragem acumulada até agora foi a STR, com 3.476,1 quilômetros. A Williams teve 3.125,3 a Ferrari, 3.150,9 e a RBR, 2.680,7.

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Hamilton e Rosberg já completaram o equivalente a 14,2 grandes prêmios. Esse dado vem da divisão dos quilômetros percorridos por 305 quilômetros, a distância de um grande prêmio. A temporada terá 20 etapas. Isso significa que muito provavelmente depois do último teste, dentro de poucos dias, a Mercedes terá disputado o equivalente a um campeonato inteiro, considerando-se apenas as corridas, antes de ele começar em termos de quilômetros percorridos.

Será realmente uma surpresa, das daquelas bem pouco prováveis, se Hamilton e Rosberg não lutarem sozinhos pela pole position e a vitória nas primeiras provas do calendário, no caso de não chover, não se envolverem em acidentes ou não enfrentarem problemas com o equipamento.

Mas faz sentido o fã da F1 acreditar, também, que RBR, Ferrari e Williams partem, este ano, de base muito boa para desenvolver seus carros. Todos nasceram bem concebidos e, agora, mais resistentes, com o avanço da Renault, unidade motriz da RBR. O cenário dos concorrentes da Mercedes é distinto, bem mais favorável a eles, agora, que em 2014.

A partir do GP da Espanha, na mesma pista catalã, dia 10 de maio, quinta corrida do ano, é possível que as três se aproximem da Mercedes, bem mais que no ano passado, por conta dos dotes demonstrados por seus chassis e, mais importante, a melhora das unidades motrizes da Renault e Ferrari.

Por enquanto, a luta será pelo terceiro lugar no pódio. Deverá envolver os pilotos de RBR, Ferrari e Williams. Por isso, belíssima, afinal é um lugar para seis pilotos com carros de desempenho provavelmente semelhante. Mais para a frente no campeonato, quem sabe Hamilton e Rosberg passem a ver Daniel Ricciardo, Daniil Kvyat, Sebastian Vettel, Kimi Raikkonen, Felipe Massa e Valtteri Bottas bem mais próximos dos seus espelhos.

Terça-feira e quarta-feira cada equipe das oito que treinaram em Barcelona, com seus modelos de 2015, serão analisadas, em detalhes, nesse espaço.

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