Como sempre acontece nas entrevistas com o argentino Federico Gastaldi, diretor geral da equipe Lotus, a entrevista acaba se tornando uma longa, agradável e proveitosa conversa. Nesse encontro com o repórter do GloboEsporte.com, nesta quinta-feira no Circuito da Catalunha, em Barcelona, Gastaldi revelou, por exemplo, o que a escuderia está fazendo, agora, para apagar da memória a pior temporada da sua história, a do ano passado, e as razões de sua organização passar de candidata ao título, em 2013, a uma das últimas em 2014.

“Pode parecer ousadia, mas vejo potencial no projeto deste ano da Lotus para lutar pelas primeiras colocações, como fizemos em 2012 e 2013”, diz Gastaldi. “Os testes aqui de Barcelona vão mostrar melhor nosso potencial. Dispomos, agora, da melhor unidade motriz da F1, Mercedes, e o grupo que trabalha em Enstone (Inglaterra) reputo como dos mais capazes.” Falou mais: “Essencialmente foi a nossa estrutura que permitiu a Benetton e Renault, como o time já se chamou, serem campeões e lutar pelo campeonato em 2012 e 2013.”

Acidentes de percurso como o de 2014 podem acontecer, comentou. Em 2013, a Lotus marcou 315 pontos, chegou ao pódio 14 vezes, Kimi Raikkonen poderia ter sido campeão. Mas apenas uma temporada depois, seus pilotos, Pastor Maldonado e Romain Grosjean, os mesmos de hoje, marcaram pontos em três etapas somente, 10 no total, ou 305 a menos de 2013.

“Tivemos muitos problemas com a unidade motriz da Renault. E nosso carro apresentava uma falha aerodinâmica que só foi percebida tarde demais (no GP da Bélgica, 12.º do calendário, dia 28 de agosto)”, diz o diretor da Lotus. Mas o planejamento para permitir ao time chegar com frequência ao pódio, este ano, começou bem antes.

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“Todos que trabalhavam com a Renault enfrentavam sérias dificuldades. Nos treinos do GP de Mônaco, Pastor deixou os boxes e ainda na volta de aquecimento parou na pista por causa da unidade motriz. Nesse instante decidimos que precisávamos trocar nosso fornecedor”, conta Gastaldi. O que aconteceu a seguir surpreendeu ele e o sócio da Lotus, Gerhard Lopez, de Luxemburgo.

“Procuramos a direção da Mercedes já naquele fim de semana. E qual não foi a nossa alegria ao saber que seria possível competir com a unidade motriz deles. E importante também, o custo era bem menor que o da Renault, não sabíamos disso”, conta, rindo, o argentino.

O desmantelamento de parte do grupo técnico da Lotus da mesma forma teve responsabilidade no desastre de 2014. “Eu considero James Allison como um dos mais competentes diretores técnicos da F1. E ele aceitou o desafio de coordenar os projetos da Ferrari”, explicou Gastaldi. Junto com ele foi o especialista em aerodinâmica Dirk de Beer. “Mas os demais engenheiros permaneceram. Allison não trabalhava sozinho. E é esse grupo, agora coordenado por outro engenheiro capaz, Nick Chester, que produziu o bom carro que temos este ano.” E emendou: “Agora mais maduro”.

Trocar Kimi Raikkonen, campeão do mundo de 2007, e grande responsável pelos brilhantes campeonatos de 2013 e 2014 da Lotus, pelo venezuelano Pastor Maldonado não fez a escuderia perder tanta força como os números do ano passado sugerem, na opinião do dirigente. “Pastor já venceu corrida (GP da Espanha de 2012, com Williams). Se lhe dermos um bom carro voltará a vencer. E Romain, conhecemos, é outro que com um carro eficiente vai lutar pelas vitórias, tenha a certeza disso, amadureceu muito.”

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Nos paddocks da F1 não há quem não comente sobre a situação financeira difícil da Lotus, Sauber e Force India. Procede, diretor? “Perdemos a conta do número de reuniões que tivemos com o senhor Bernie Ecclestone e os representantes de outros times. E ao longo do ano passado não avançamos um único centímetro nas mudanças que consideramos importantes não apenas para nós, para essencialmente para a F1.”

Alguns valores alimentados pela F1 são impressionantes para o diretor da Lotus. “Há muita vaidade aqui, este é um mundo de egos imensos. Há interesses de toda natureza. Eles não enxergam que somos importantes também para eles. O que está mais errado aqui é alguns, que já têm muito dinheiro, ficarem com a parte do leão do gerado pelo show. E os que não têm tanto, ou bem menos, receberem tão menos. É um modelo que não funciona.”

Equipes como Ferrari, Mercedes, McLaren, RBR têm garantido na divisão do dinheiro da F1 valores bastante elevados; a partir deste ano ainda mais, com o novo Acordo da Concórdia. Essa é a revolta de Lopez e Gastaldi, da Lotus, Monisha Kaltenborn, Sauber, e Vijay Mallya, Force India. Em bloco os três pressionam Ecclestone a rever o critério, curiosamente não definido por ele, mas muito pelos responsáveis das maiores equipes da F1, “que têm muita força”.

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Mesmo com tudo isso jogando contra, afirma Gastaldi, a Lotus ainda irá dispor, este ano, de um orçamento que a permitirá voltar a crescer. “Não se compara com o desses times que recebem muito mais de nós, mas em 2012 e 2013 com menos da metade deles quase chegamos lá. Temos potencial, depois dos erros do ano passado, de voltarmos a ser bem competitivos.”

A nova F1 é bem vista pelo diretor da Lotus. Motores de 1000 cavalos, carros e motores mais largos vão ao encontro do que os fãs desejam. Sua visão, contudo, é a de que não teria sentido tentar implantá-la já em 2016.

“Como? Nós votamos no que é melhor para a F1. Não haveria como nos preocuparmos com o atual campeonato e, ao mesmo tempo, manter um programa completamente distinto, pois o conhecimento de hoje não servirá para nada nessa nova F1.” A Lotus não tem, como explicou, alguém que tire dinheiro indefinidamente do bolso. “Como existe na F1.”

Nesta quinta-feira, Maldonado recorreu a alguns recursos conhecidos na F1, como manter pouca gasolina no tanque e usar os pneus macios da Pirelli, mais aderentes, para estabelecer o melhor tempo do primeiro dia de treinos da segunda série da pré-temporada. O venezuelano registrou 1min25s011, seguido por Kimi Raikkonen, com a Ferrari SF15-T, ratificando os dotes do carro italiano, com o tempo de 1min25s167.

Mas também é verdade que Maldonado completou 69 voltas no exigente traçado de 4.655 metros, o que mostra quem além de o E23-Mercedes da Lotus ser rápido, em condições favoráveis, é confiável.

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