Há quatro anos, a liderança da multinacional alemã de ferramentas elétricas Bosch percebeu que precisava inovar na maneira como se comunicava com seus quase 300 000 funcionários mundo afora. O alerta veio com a descoberta de que muitos profissionais na matriz, em vez de usar o e-mail corporativo, por praticidade estavam trocando mensagens sobre o trabalho em diferentes redes sociais — um risco à segurança da companhia.

Como resultado, em setembro de 2013 a Bosch usou uma plataforma da empresa de tecnologia IBM para lançar a própria rede social. Ela está armazenada na nuvem e não exigiu nenhum treinamento para ser usada pelos funcionários porque tem um formato bem semelhante ao das redes pessoais que hoje atraem mais de 1 bilhão de pessoas.

Nela, os funcionários da empresa criam grupos de discussão, têm postadas em seu perfil informações que devem priorizar — como o prazo de entrega de um projeto — e, obviamente, trocam mensagens, o que fez com que, em menos de dois anos de uso da ferramenta, o volume de troca de e-mails tenha diminuído 25%.

No Brasil, em 2014, a rede foi usada, por exemplo, pela área de tecnologia para estimular os 300 profissionais de uma das 15 unidades de negócios da companhia, a de reposição de autopeças, a fazer uma limpa no conteúdo armazenado em seus computadores. Funcionou: a faxina liberou espaço nos servidores da empresa e gerou uma economia de 70 000 reais.

No ano anterior, quando os empregados foram lembrados da tarefa por meio de e-mails e de cartazes pelas paredes, a ação resultou numa economia de apenas 20 000 reais. “Os funcionários exigem hoje uma comunicação mais dinâmica da empresa, e a rede social tem se provado um canal excelente para isso”, afirma Ellen Silva, gerente de marketing e mídias digitais da Bosch.

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Na companhia de telefonia TIM, subsidiária da Telecom Italia no Brasil, quem se apoderou da ferramenta foi a área de recursos humanos. Em 2014, ela lançou, com a ajuda da empresa argentina de tecnologia GoIntegro, uma rede social corporativa com um único propósito: incentivar 6.000 funcionários da companhia a destacar colegas por ações que executaram em relação a algum dos cinco novos valores definidos pela empresa, como “inovação” e “cuidado com o cliente”.

Cerca de 4.500 foram nomea­dos por pares, e os 584 que receberam mais de seis indicações ganharam prêmios como bicicletas e televisores. “A rede social deu visibilidade aos vencedores dentro da companhia, e 97% declararam que a iniciativa foi exitosa em reconhecer o trabalho que eles desempenham”, diz Marcello Curvelo, diretor de planejamento e gestão de pessoas da operadora de celular.

Bosch e TIM não são as únicas empresas seduzidas pelo potencial das redes sociais de engajar os funcionários nos mais diferentes propósitos. Um levantamento da consultoria McKinsey realizado em meados do ano passado com 1 674 companhias globais revelou que 82% adotaram alguma versão da ferramenta em 2013. Ao avaliar os resultados de seu uso, 62% disseram que ele melhorou significativamente o fluxo de trabalho.

Segundo Michael Chui, um dos autores da pesquisa, os benefícios dessas tecnologias são sentidos, sobretudo, pelos profissionais de alto nível de qualificação nas empresas. “Calculamos que elas podem aumentar a produtividade desses funcionários em até 25%”, afirma Chui.

Isso porque as redes permitem que essas pessoas gastem menos tempo com tarefas repetitivas, como mandar inúmeros e-mails para dividir informações estratégicas com subordinados ou pares de outras áreas. Basta criar uma comunidade na rede e postar uma única vez o conteúdo que é útil a todos.

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Feito isso, há também uma garantia de que o conhecimento valioso que esses profissionais possuem vai permanecer na empresa, mesmo que eles saiam. Em um dos projetos tocados recentemente pela matriz da Bosch, 300 engenheiros de dez operações da empresa no mundo, incluindo o Brasil, discutiram na rede por duas semanas sobre como melhorar o desempenho de um sensor de exaustão a gás — produto que a Bosch vende às montadoras de veículos.

Ao fim do projeto, o balanço foi positivo não só porque resultou na geração de 66 ideias para o aperfeiçoamento do produto e três novas patentes mas também porque o conhecimento técnico que veio à tona foi gravado na rede e agora pertence à empresa. É claro que algumas reuniões presenciais entre alguns dos engenheiros se mostraram necessárias, mas os custos com viagens, quando comparados a projetos anteriores, foram 70% menores.

Ainda que gigantes como a IBM e a SAP e a brasileira Totvs estejam disputando com afinco o mercado de redes corporativas, o que tem chamado a atenção é o interesse dos investidores nas startups que também estão apostando nessas tecnologias. Um dos melhores exemplos desse movimento é a Slack.

Lançada em janeiro de 2013 pelo americano Stewart Butterfield — que também esteve por trás da criação do Flickr, site de compartilhamento de fotos comprado pelo Yahoo! em 2005 —, a Slack é uma plataforma que permite troca de mensagens e de arquivos entre celulares e computadores de funcionários de uma mesma companhia.

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Desde que chegou ao mercado, já recebeu 180 milhões de dólares em seis rodadas de investimento, uma delas capitaneada pelo Google Ventures, o braço de investimentos do Google. Em março, a Slack, que vem sendo usada por empresas tão diversas quanto o varejista Walmart e o conglomerado industrial General Electric, foi avaliada em 2 bilhões de dólares. Quatro meses antes, ela valia apenas metade dessa cifra.

A despeito do frisson em cima dessas tecnologias, há que pontuar suas fraquezas. Uma delas é que ainda é cedo para saber quanto elas são realmente seguras para as empresas que as utilizam. Aqui, de novo, a Slack é um bom exemplo. No dia 27 de março, a startup divulgou que, em fevereiro, foi atacada por hackers e eles tiveram acesso a e-mails e telefones de parte dos 500 000 usuários da rede.

No mesmo dia, uma atualização do software, supostamente à prova de invasores, foi colocada na internet para ser baixada, mas as informações já haviam sido roubadas.

Outra verdade é que o uso das redes corporativas está fadado ao fracasso se não houver na empresa uma cultura sedimentada de estímulo à colaboração. Segundo a pesquisa da McKinsey, se a lógica dominante for a de esconder informações de pares e subordinados, só o que é irrelevante será compartilhado e, com o tempo, ela não terá nenhuma atratividade.

Feita essa ressalva — de que essas ferramentas não operam milagres —, as chances de as empresas se beneficiarem do fato de ter todos os funcionários em rede são, de fato, grandes.

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