A casa de Kauê Mena, em Santa Vitória do Palmar (RS), estará repleta de parentes nesta segunda-feira. Os tios, avós, pais e irmão do ex-lutador vão se sentar à mesa para celebrar… a vida. Kauê será o centro das atenções. Embora seu aniversário seja apenas em novembro, desde 6 de junho de 2013, a data marca seu renascimento. No fatídico dia, ele sobreviveu ao ser espancado brutalmente em um posto de gasolina, em Balneário Camboriú, na companhia do então amigo e lutador Maiquel Falcão. As imagens da tragédia, como define o episódio, correram o mundo. Passados dois anos, Kauê contraria a medicina, está de volta à faculdade, estagia e dá aula de muay thai.

– Essa tragédia foi um marco para a minha família. É meu aniversário praticamente. É o dia que nasci de novo. Vou comemorar porque estou bem, ao lado das pessoas que me amam. O que passei não desejo a ninguém. O pior não é você passar por isso, e sim a sua família – conta Kauê, em entrevista exclusiva, por telefone, ao Combate.com.

Kauê fala com desenvoltura surpreendente para quem sofreu oito cirurgias apenas no crânio, ficou em coma e na iminência de morrer. A faculdade de Educação Física foi retomada este ano, e a previsão de formatura é para o fim de 2015. Ele estagia, ainda, como professor em uma escola estadual e dá aulas de muay thai em uma academia. Além disso, a fisioterapia, que o ajudou a voltar a andar, foi trocada pela musculação para fortalecer o corpo.

– A medicina não tem explicação para o meu caso. As pessoas se perguntam como eu posso caminhar, estudar. O pessoal de medicina da PUC do Rio Grande do Sul estuda o meu caso e até hoje não consegue explicá-lo.

Leia também:  Cuiabá Arsenal faz vaquinha para viajar à semifinal no Nordeste

Com a rotina atribulada, Kauê vai se aproximando da vida que tinha antes do fatídico episódio que mudaria sua trajetória. Atualmente, sente falta apenas de correr, pois, ainda que caminhe sem precisar de amparo, não consegue aumentar o ritmo. Por enquanto.

– Eu sempre amei essa parte do atletismo, que fazia desde meus 15 anos de idade. Gostava de treinar explosão, tiro de 100 metros… Amo até assistir. O pessoal até hoje conversa comigo para pegar opinião sobre o assunto. Tenho um pouco de dificuldade em me equilibrar, mas ando sozinho, vou ao cinema, não preciso de ninguém. Com o tempo, vou conseguir. A cada dia eu subo um degrau. Eu sempre fui um otimista, penso positivo. Se, talvez e por acaso são palavras que eu nunca usei. Sou um cara que tem pensamento positivo. Nos momentos mais difíceis não me entreguei, então, não vai ser agora. Se eu tiver que atravessar o mundo caminhando, vou lá e conseguirei.

A força de vontade e a superação de Kauê impressionam. O caso que ganhou projeção nacional tornou o gaúcho um rosto identificável aos mais antenados. E, não raro, pessoas desconhecidas se emocionam ao ver pelas ruas o jovem que foi espancado com chutes, socos e pedaços de madeira mesmo após ficar desacordado, estirado no chão.

– Às vezes vou passear com a minha família ou com meus amigos, e as pessoas olham e começam a chorar. Acho que elas não acreditam no que veem. Para mim, isso não é uma coisa ruim ou negativa, me dá incentivo ainda maior para batalhar, estudar e correr atrás.

Estudar, aliás, é uma das palavras mais repetidas por Kauê ao longo da entrevista, apesar de estar de férias. Ele mostra empolgação para seguir no mundo acadêmico, deixando a vontade de lutar no passado. Para o futuro, pretende cursar pós-graduação em Fisiologia do Exercício e, a longo prazo, abrir um Centro de Treinamento com seu irmão, estudante de fisioterapia.

Leia também:  Palmeiras assume a vice-liderança após vencer Grêmio fora de casa

– Eu não posso receber impacto no crânio e estou recuperando minha coordenação motora. Não tenho mais interesse em lutar, quero estudar, dar um jeito na minha vida. Eu ajudo quem for lutar, passo um pouco da minha experiência e incentivo. Gosto de artes marciais, dou aula de muay thai na equipe Mota, em Pelotas, mas lutar não é mais o que eu quero. Você não é bem remunerado, não tem o valor que merece. Há o valor de mídia, mas não um bom valor financeiro. Daqui a dez anos espero estar com um Centro de Treinamento especializado em hipertrofia, emagrecimento e recuperação muscular. Há várias academias, mas quero fazer uma coisa diferente. Até lá vou estudando, pois nessa área de saúde é preciso estar sempre atualizado – declara Kauê, que costuma acompanhar os eventos do UFC ao lado do pai e, claro, com o chimarrão em punho.

Da pancadaria no posto de gasolina, Kauê não se recorda – a memória do que aconteceu vem das vezes em que assistiu ao vídeo do circuito interno de câmeras do local. O estrago foi tamanho que perdeu massa encefálica e, portanto, algumas lembranças de sua recuperação. A mãe, dona Gisele, que largou o emprego para se dedicar ao filho, tem todos os registros fotográficos da recuperação. Kauê passou um ano e meio no hospital – 44 dias em coma – auxiliado por nove enfermeiras, que se revezavam. Ele não tem problemas em falar do assunto e nem em ver as fortes imagens – e diz que seus agressores estão perdoados.

Leia também:  Dourado sobe duas posições e chega ao 50º lugar no ranking Nacional

– Se tiver que ver, eu vejo, mas, resumindo, virei essa página há muito tempo. Se precisar conversar com qualquer pessoa sobre a tragédia, eu falo. Passei uma borracha, não tenho nada contra eles, não quero rivalidade ou algo de ruim. Já os perdoei faz tempo.

Em relação a Maiquel Falcão, seu amigo na época e que acendeu o pavio da briga ao encostar em uma amiga dos agressores na loja de conveniência do posto, Kauê diz nunca mais ter tido contato.

– Quando a juíza me perguntou se eu tinha vínculo com o Falcão, eu disse que não tenho desde a tragédia. Não quero e, se vir nas minhas redes sociais, não sou amigo e tampouco o sigo. Se eu viesse a falar com ele, não estaria desrespeitando a mim, e sim, a minha família.

A volta por cima de Kauê serve de exemplo e inspiração, não só para desportistas, como para quem encontre grandes obstáculos pela frente. Por isso, incentivado por um professor, ele não descarta contar sua história para semear a esperança e a determinação.

– Tem um professor que fala que eu tenho que dar palestra para dar estímulo para as outras pessoas. Se tem alguém para baixo, eu consigo levantar o astral, segundo ele. Eu consigo falar para as pessoas e aprovo tudo que for positivo e para ajudar. Eu daria palestra com prazer.

Advertisements

Comentários

*Os comentários aqui publicados são de responsabilidade dos usuários e não representam a opinião do site.