Daniel Filho - Foto: reprodução
Daniel Filho – Foto: reprodução

A chegada de Daniel Filho na Globo, no final dos anos 1960, levado por Boni, ajudou a mudar de vez o que chamamos de teledramaturgia brasileira. O jovem ator e diretor chegou na emissora com a missão de substituir o consagrado diretor Ziembinski à frente da novela “A Rainha Louca”, da escritora cubana Glória Magadan. Não só substituiu, como fez nascer dessa oportunidade o jeito brasileiro de fazer dramaturgia com qualidade.

Logo tornou-se um dos mais importantes e “temidos” diretores da nossa televisão. Conhecido por seu temperamento forte, Daniel conduziu alguns dos principais produtos da dramaturgia da Globo, entre eles : as novelas”Irmãos Coragem” (1970), “Selva de Pedra” (1972) e “Pecado Capital” (1975), todas de Janete Clair, autora com quem firmou uma bem-sucedida parceria.

Daniel também foi um nome importante no desenvolvimento de séries nacionais. Comandou produções como “Malu Mulher” (1979), “Carga Pesada” (1979) e “Plantão de Polícia” (1979), e participou da concepção de um grande sucesso da TV, “A Grande Família”. Além disso, dirigiu o especial “A Vida Como Ela É” (1996) e participou da elaboração do “Sai de Baixo” (1996), entre outros trabalhos importantes.

Na Globo, fez amigos, inimigos, ganhou poder, perdeu poder, deixou a emissora em 1991 e voltou a trabalhar na casa em 1995, como diretor de núcleo. Desligou-se da Globo no início de 2015, justamente no ano em que a emissora que ajudou a construir completa 50 anos. Daniel não teve seu contrato renovado por divergências em algumas cláusulas, como a do período de duração. Deixou a casa um pouco magoado, mas não entra em detalhes. “Foi mais desagradável”, diz ele.

Homem de cinema, dirigiu sucessos de bilheterias como “Se Eu Fosse Você” e “A Partilha”.

Seus últimos trabalhos na Globo foram “O Astro”, em 2011, e “As Brasileiras”, em 2012.

Em entrevista ao KTV, Daniel Filho fala sobre o futuro da TV, que ficou bem mais “complexa”, diz ele. Aos 77 anos, o diretor fala sobre seus novos projetos no cinema e seus gostos como espectador. O diretor ainda critica as novelas e diz que as tramas precisam fugir de histórias já contadas e cenas sem sentido.

Daniel se arriscou em produção independente quando ninguém pensava nela, em 1992, quando transformou a peça “Confissões de Adolescente” em seriado de TV. Hoje, diz que a TV já “perdeu os jovens” e que segue pensando e esperando uma ” proposta irrecusável” para voltar a produzir para a televisão.

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A TV que você ajudou a criar, com fórmulas de sucesso como novelas e telejornais que sedimentaram a hegemonia das emissoras abertas têm futuro promissor no Brasil?

Daniel Filho – A televisão que começou a ser criada nos anos 50 demorou bastante tempo até achar o seu estilo e se consagrar. Em 1995, esse modelo começou a passar por grandes modificações com a chegada das mídias digitais. A maneira de se ver TV ficou mais complexa. Não existe mais aquele modelo de TV na sala, com a família em volta assistindo. As pessoas gostam de ver programas em celulares, nos tablets, computadores…. Então, as emissoras têm que se reinventar e evitar seguir as fórmulas que já foram muito exploradas.

Te entrevistei há uns 8 anos e você já me disse, naquela época, que passava muito tempo no YouTube. Que esse era o novo jeito de ver TV. Na época dei risada, mas você estava certo. Acha que a TV como conhecemos vai desaparecer para dar lugar a YouTube e serviços on-demand como Netflix?

Há oito anos, em 2007, falamos de YouTube, que apresentava vídeos muitas vezes não profissionais. Hoje temos Netflix, Apple TV, Amazon etc, todos com qualidade profissional. O serviço se qualificou. A TV não vai desaparecer, mas ela já está se modificando para ficar cada vez mais ágil. Assim como o rádio se modificou também décadas atrás, com a chegada do FM. Outra questão é a importância dos patrocinadores, que querem ter a certeza de que tipo de público vai atingir – isso a TV oferece por causa das faixas de horário. Mas a internet já começa a encontrar maneiras de usar a publicidade de maneira eficiente, colocando os anúncios de diferentes formas: às vezes você tem que ver a propaganda inteira; às vezes você vê um pedaço dela e pode passar para o vídeo…. São as mídias se adaptando.

Consegue entender por que as novelas não fazem mais o mesmo sucesso de antigamente? A fórmula esgotou?

As novelas não se esgotaram, mas o que está sendo apresentando, de maneira geral, são referências a histórias já contadas. É preciso encontrar um novo tema e saber que novela não é sitcom e não é filme de aventura. É preciso fugir das fórmulas. Duas que eu cito como bons exemplos são ‘Sete Vidas’ e atual do horário das seis, ‘Além do Tempo’. O que eu também observo é que há uma ascensão da produção em detrimento da história. Não é preciso destruir um avião ou fazer uma grande festa no terceiro capítulo da novela ou viajar para outro país para mostrar uma produção grandiosa. As cenas têm que vir da exigência da trama e o que vejo é que muitas delas são sem sentido. Outra questão são alguns capítulos muitos longos, de mais de uma hora. Não há quem aguente.

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O que você gosta de ver atualmente na TV?

Tenho mais de 500 canais em casa. Gosto de ver TV americana, principalmente os programas America’s Got Talent, American Ninja Warrior, Jon Stewart, Jimmy Falon… Também gosto de alguns seriados como “Breaking Bad”, “Fargo”, “Homeland”, “Girls”.

O que você não tem paciência de ver na TV?

Não suporto sitcoms com modelos enlatados. São fórmulas cansadas. De vez em quando surge uma ideia nova como ‘Modern Family’, mas o modelo logo se esgota. Os programas de auditório.

O caminho para a TV aberta é o jornalismo e o ao vivo?

O jornalismo é essencial na TV, mas está competindo com as notícias na internet. A gente costuma ver na TV jogos de futebol, as Olimpíadas, que são programas em tempo real, e o telejornal, conforme o profissional que a gente gosta. Tem que ter um equilíbrio entre jornalismo e entretenimento, os dois bem feitos.

Outra coisa que você me disse lá atrás, é que um dos caminhos na TV brasileira seria a produção independente. Continua pensando assim?

Sim. Nos Estados Unidos, na Inglaterra, França etc, as produções independentes são muito fortes e chegam a ser apoiadas pelas emissoras nas quais elas serão exibidas. Inclusive, existem emissoras que exibem os programas produzidos pelas concorrentes. Aqui, essa produção vai aumentar cada vez mais. Fernando Meirelles e O2, Jorge Furtado, A Conspiração são exemplos de pessoas que produzem de forma independente, com produtos de alta qualidade.

Você gosta de assistir novelas e programas mais antigos como os que passam no Viva? Ou não gosta de ver obras do passado?

Acho o canal Viva um grande achado, sem dúvida. Mas para eu assistir o programa ou a novela eles têm que ser muito antigo mesmo. Vejo para matar as saudades dos meus companheiros de profissão. Um dos meus canais preferidos é o TMC (Tuner Movie Classics), que exibe muitos filmes antigos. Aos domingos à noite, por exemplo, sempre tem um filme mudo.

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Muitos dos diretores e dirigente de TV que entrevistei falaram da dificuldade de fisgar o público jovem , que não consome mais TV da mesma forma. Acha que uma produção de sucesso como o ‘Confissões de Adolescente’ (produzido por Daniel) poderia ganhar nova versão nos dias de hoje e ser bem aceito pelo público?

O “Confissões” foi um sucesso naquela época. Levei a peça para a TV depois que vi no teatro algo muito surpreendente: aquelas meninas falando para outras algo que nunca havia sido dito daquela maneira. A TV já perdeu os jovens. Tenho na família adolescentes de 10, 11, 12, 13 anos… Uma blogueira como a Kéfera, por exemplo, fala muito mais abertamente com os adolescentes, à maneira delas, do que um programa como “Malhação”, que nada mais é do que uma novela. É preciso se reconectar com estes jovens.

Na sua opinião, do que a TV brasileira deve se orgulhar?

De ter sido boa durante muitos anos, de reunir talentos que puderam ser desenvolvidos. Ela possibilitou também o desenvolvimento de excelentes autores e roteiristas. Começamos imitando as novelas mexicanas e cubanas e depois criamos um estilo que passou a ser copiado naqueles países.

Se pudesse voltar no tempo, nos 50 anos da Globo, o que você não faria e o que vc teria prazer em fazer de novo?

Não assinaria certos contratos cedendo os direitos de tudo o que produzi. Teria prazer em fazer de novo tudo o que eu fiz; mesmo as coisas ruins, pois foram elas que me ensinaram os caminhos corretos.

Sua segunda saída da Globo, mais recente, foi mais difícil que a primeira? Por que?

Foi mais desagradável porque fui tratado de forma muito surpreendente. (Daniel não quis dar detalhes)

Foi uma decisão sua, ou da emissora?

De ambos.

Quais os seus projetos atuais no cinema?

Vou adaptar um livro da Thalita Rebouças, “Uma fada veio me visitar”. Estou agora em negociação com o elenco. Também estou tocando três projetos simultâneos, um deles com a Glória Pires e um outro com Marília Pêra.

E na TV. Pretende produzir algo para a TV em breve? O que?

Estou pensando e esperando “uma proposta irrecusável”.

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