Nos últimos anos, as perguntas sobre aposentadoria viraram rotina para Rodrigo Minotauro. Em cada camp de preparação, o lutador baiano precisava responder que não, a próxima não seria uma luta de despedida, às vezes visivelmente incomodado pela insistência no assunto. No último período de treinamento, entretanto, mesmo negando, o peso-pesado já considerava dar o adeus após enfrentar Stefan Struve no UFC Rio 7, em 1º de agosto passado. Na terça-feira, um mês após sair do octógono pela última vez, Minotauro enfim respondeu positivamente: sim, está se aposentando.

– Pouco antes da luta, estava sentindo isso. Eu tive alguns momentos para poder fazer isso, chegamos a tentar falar isso algumas vezes, achei que não seria o momento certo. Mas nessa coletiva, quando assumi esse novo trabalho, não conseguiria assumir as duas funções. Eu decidi que esse cargo vai ocupar o meu tempo – contou o ex-campeão do Pride e do UFC ao Combate.

Não foi uma decisão fácil, deixar de lutar, mesmo após 34 vitórias. Ela foi tornada um pouco mais fácil pela aproximação com o novo diretor-geral do UFC no Brasil, Giovani Decker, e pelo convite para seguir trabalhando com a organização como dirigente, no relacionamento direto com os atletas.

– A gente sempre para pra pensar, né? (risos). Mas é uma coisa que estava em mente fazer. Há alguns meses, quando o Giovani (Decker) assumiu o UFC no Brasil, eu percebi o cuidado que teve com os atletas, me ligava, assim como liga para o José Aldo, para o (Vitor) Belfort, Thominhas (Almeida), para saber como os atletas estão. Esse acompanhamento mais de perto, face a face com os atletas, precisávamos disso. Antes de eu entrar para lutar agora, ele me ligou três dias antes e eu disse que sentia muito orgulho de ser lutador do UFC. E ele comentou que o dia que eu parasse de lutar, poderia trabalhar com ele nessa interface dos atletas da organização. Foi bem interessante, mexeu muito comigo. Após a minha luta, o Dana White tinha conversado comigo, e perguntou que dia estaria pronto para trabalhar com eles. Foi bem pensado, depois da luta, até na luta eu saberia que estava chegando a minha hora de parar. São muitas contusões, problemas físicos que não me deixam desempenhar meu trabalho no mesmo nível de anos atrás.

Leia também:  Bruno Fratus bate marca de Cielo e é campeão no Mare Nostrum

As perguntas sobre aposentadoria são coisa do passado, e Minotauro fez as pazes com quem insistiu na pergunta e nos pedidos, inclusive Dana White, presidente do UFC.

– Eu sempre tive muito carinho, e muitas vezes aconteceu isso não só dos fãs, mas também do Dana White. Após minha cirurgia no quadril, fui chamado para lutar e aceitei, e ele deu uma retrucada, ficou meio assim de eu lutar após a cirurgia, mas também disse que, se eu quisesse lutar, era na hora que eu quiser. Assim muitos fãs também pensam, tem muito carinho de mim, em preservar não só minha imagem como lutador, mas minha pessoa pós-carreira. Sempre fui feliz com esse carinho do público e das pessoas do UFC. É o momento certo.

Confira mais declarações de Minotauro sobre sua carreira e sua nova função no UFC:

Quem sabia da aposentadoria?

– Não falei com minha filha. Só falei com meu pai e com meu irmão, mais ninguém. Não queria ser influenciado (risos).

Como gostaria de ser lembrado

– Como garra, determinação. Gostaria de ser lembrado assim, por não desistir nunca. Além de ter chegado a alguns títulos mundiais, ter feito muito pelo esporte, mas por ter trazido muitos talentos. Por isso agora essa nova função no UFC de “caça talentos”. Eu sempre trabalhei muito outros atletas, como grandes que citei nomes, Anderson Silva, Junior Cigano, Rafael Feijão, Rony Jason, mas também vários outros. Eu gostaria de ser lembrado assim, como o cara que não desiste nunca, para cima o tempo inteiro, ganhando ou perdendo, mas também o que pode trazer novos atletas.

Leia também:  Brasil vence amistoso contra a Croácia com gol de Neymar e Firmino

Parte mais difícil de ser embaixador

– Essa interface entre atletas e organização, o atleta dar o melhor para divulgar a organização é difícil. Ao mesmo tempo o atleta pensa nele, no camp dele, no desempenho, mas às vezes não veem que se a imprensa não está participando do camp dele, não puder divulgar isso, ele não consegue a popularidade que a organização precisa. Essa interface entre o atleta representar a organização, com boa imagem, bom costume, o tipo de foto que posta, não postar nada bebendo, isso pode ser que tenha dificuldade com atletas mais rebeldes. E na descoberta de novos talentos, essas caras que são os melhores do Brasil e não são achados aqui. Pode ser difícil, porque o Brasil é grande. Vamos ter que rodar muito para levar os melhores.

Experiência na observação de talentos

– Eu já promovi eventos, 12 eventos, e falei que o José Aldo seria o cara. O Anderson Silva, também consegui achar, ele estava dando aula em uma academia em Curitiba e consegui ter um contato com ele, sabia do potencial dele. Junior Cigano, desde o começo, nas primeiras aulas de jiu-jítsu. Eu pratico desde os quatro anos de idade, consigo identificar bem, não só o talento, mas a determinação, a raça, a coragem, vontade, humildade. Você percebe esses valores que cada um tem, potencializa e dá treinamento. Consegui fazer isso com muitos e outros se perderam por falta de estrutura financeira minha para poder ajudar, ou o próprio lutador para ajudar a família, ir trabalhar. Isso vai muito além, não é só lutador que está despontando no Jungle Fight, no Face to Face, no Shooto, mas aqueles dos eventos de jiu-jítsu. Um amigo meu me falou, “presta atenção no Thales Leites”. Comecei a olhar, o cara viu o Thales faixa-azul, em Niterói, fui percebendo, comentando com as pessoas. Então, isso vai muito além.

Leia também:  Lutador de MMA é assassinado dentro de casa na frente da esposa e filho

Se sente realizado?
– Fiz muito para o esporte, não só pelos títulos, mas por ter trazido outros. Levado o Anderson para treinar, trazido o Rafael Feijão para o UFC, o Fábio Maldonado, outros para outros eventos. O Junior Cigano até uma luta de título. Isso para mim foi muito importante. Vários títulos, o carinho da imprensa, fiz grandes amigos, pude ver isso no UFC, quando a imprensa quebrou a mesa, jogou coisa para cima (risos). Imprensa e público, pude fazer grandes amigos nesse esporte.

A emoção da vitória no UFC Rio 1

– Eu descobri a lesão no quadril. De 2001 até 2008, estava entre os três melhores, sempre eu, Fedor (Emelianenko), Randy Couture. No final de 2008 para 2009, vi que não conseguia mais dar um salto, fazer coisas que faria normalmente. Descobrimos a lesão no quadril, operei, tive que ficar seis meses de muleta. Depressão total, frio do caramba. Voltei para o Brasil, cheguei no aeroporto, indo para a clínica da Dra.

Angela Côrtes e me ligaram do UFC, falando que chegariam no Rio em agosto. Isso era janeiro, e me perguntaram se estaria apto a lutar. A recuperação da cirurgia do quadril era de nove meses, eu não estaria apto. Conheci a Dra. Ângela, grande amuleto na minha vida, conseguiu me fazer lutar desde aquela época até hoje. Foram três meses para lutar, depois que larguei a muleta. Foi uma superação, operar o quadril, o ombro, e conseguir fazer essa luta. Uma maluquice, o público gritando, TV aberta pela primeira vez. Muita gente que não conhecia o UFC passou a conhecer naquele dia. Foi um dia muito especial para mim.

Comentários

*Os comentários aqui publicados são de responsabilidade dos usuários e não representam a opinião do site.