Ex-jogador da seleção brasileira - Foto: reprodução
Ex-jogador da seleção brasileira – Foto: reprodução

A atuação do ex-jogador da seleção brasileira Edílson da Silva Ferreira, conhecido como Edílson Capetinha, em um esquema de fraudar pagamentos de prêmios de loterias, se dava mais por suas transações bancárias do que pela fama que construiu quando era atleta. A constatação foi feita pelo procurador da República Hélio Telho, do Ministério Público Federal em Goiás (MPF-GO), que assinou denúncia contra ele e mais dez pessoas suspeitas de integrar a quadrilha que agia em vários estados do país.

Segundo o documento, divulgado na terça-feira (24), Edílson não tinha uma função de chefia, mas sim de aliciar gerentes da Caixa Econômica Federal (CEF) para participação no ato criminoso.

“Acho que o fato dele ter um relacionamento de negócios com o banco facilitou para ele se tonar um aliciador em potencial. Ele não depositava um salário mínimo. A movimentação chamava atenção, tinha aplicações e renda. Se o gerente não topasse, era um risco. O fato dele ser jogador e conhecido não foi decisivo”, disse o procurador ao G1.

Edílson Capetinha - Foto: reprodução
Edílson Capetinha – Foto: reprodução

Hélio Telho explicou que Edílson era amigo de um dos líderes do grupo, que está preso na Bahia. Grampos telefônicos feitos com a autorização da Justiça comprovam a ligação entre os dois. Os áudios não serão divulgados para a imprensa, segundo o procurador, que já havia revelado que as escutas comprovavam a proximidade entre eles.

O advogado de Edílson, Thiago Phileto, afirmou ao G1 que o ex-jogador é inocente e vai provar esta condição ao longo da instrução do processo.

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Conforme explica o representante do MPF-GO, as investigações ainda não conseguiram descobrir qual o valor obtido pelos denunciados na fraude. As apurações do caso seguem no sentido de descobrir quais golpes foram tentados, quais deram certo e se há outras pessoas envolvidas.

Cartões bancários apreendidos com suspeitos de fraudes na loteria (Foto: Divulgação/Polícia Federal)
Cartões bancários apreendidos com suspeitos de fraudes na loteria (Foto: Divulgação/Polícia Federal)

Denúncia

Esta é segunda denúncia feita pelo MPF em relação à Operação Desventura. Além de Edilson, outras 10 pessoas devem responder por crimes como furto qualificado por fraude, estelionato, falsificação de documento público, tráfico de influência, corrupção ativa, crime contra a ordem tributária, evasão de divisas e lavagem de dinheiro.

São elas: André Luiz Sandre Abraão, Eduardo Daniel Lucena dos Santos, Leonardo do Rêgo Santos, Paulo Roberto Castro Santana, Saulo Santos de Oliveira, Claudemário da Paixão Copque Costa, Jairo Dias de Souza, José Sukadolnik Filho, Ronaldo Antônio de Faria e Sílvio Felipe Dionízio.
A reportagem não conseguiu contato com a defesa dos outros envolvidos até a publicação dessa reportagem.

Fraudes

No dia 14 de outubro deste ano, o MPF-GO ofereceu a primeira denúncia contra os investigados na operação. Foram alvo cinco integrantes da cúpula da quadrilha: Eduardo Pereira dos Santos, Arcanjo Jorge Peralta, Hernane de Araújo Lima, Leandro de Carvalho Oliveira e Sinomar José da Silva. Eles também vão responder pelo crime de organização criminosa.
Segundo o procurador Hélio Telho, eles se associaram para planejar e cometer as fraudes que renderam cifras milionárias. “A nossa urgência maior foi em analisar a situação dos suspeitos que estão presos, já que existem prazos e não podíamos correr os risco de que eles fossem soltos pela Justiça”, disse, na época.

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Operação Desventura

A Polícia Federal deflagrou a Operação Desventura no último dia 10 de setembro. No total, foram expedidos 54 mandados judiciais contra o grupo em Goiás, na Bahia, São Paulo, Sergipe, Paraná e no Distrito Federal.
Segundo assessoria de imprensa da PF, dos mandados, 13 eram para prisões preventivas e temporárias, sendo os seis em Goiás. No total, 10 pessoas foram detidas, incluindo as três no estado. Já das do total de 22 mandados de conduções coercitivas, 19 foram cumpridos. Os 19 de busca e apreensão foram todos realizados.

De acordo com a corporação, a investigação, iniciada em outubro do ano passado, apontou que o esquema criminoso contava com a ajuda de correntistas da Caixa Econômica Federal, que eram escolhidos pela quadrilha por movimentar grandes volumes financeiros e que também seriam os responsáveis por recrutar gerentes do banco para a fraude.

Ainda segundo a PF, quando os criminosos estavam de posse de informações privilegiadas, entravam em contato com os gerentes para que eles viabilizassem o recebimento do prêmio por meio de suas senhas, validando, de forma irregular, os bilhetes falsos.

“A fraude não está no sorteio, ela está na validação fraudulenta dos bilhetes. Qualquer bilhete premiado tem o prazo de 90 dias para ser retirado. O sistema da Caixa emite um alerta quando faltam oito dias para prescrever esse bilhete. Com base nessas informações privilegiadas, servidores da Caixa repassavam quais seriam esses bilhetes para membros da quadrilha”, explicou a delegada Marcela Rodrigues de Siqueira, logo após a deflagração da operação.

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Em nota, a Caixa Econômica Federal informou que “manterá cooperação integral com as investigações em curso”. A instituição destacou, ainda, que “está tomando todas as providências de abertura de processos disciplinares, apuração de responsabilidades e afastamentos, nos casos de envolvimento de empregados do banco”.

Financiamentos

Segundo a delegada, o grupo também alterava o sistema do Departamento Estadual de Trânsito (Detran) de vários estado e conseguia retirar financiamentos ainda não quitados do registro de veículos.“De posse de informações sigilosas, eles obtinham senhas de gerentes específicos, entravam em um sistema que migra para o do Detran e, com isso, conseguiam tirar gravames de veículos de diversas instituições financeiras”, explicou.

Além disso, a delegada explicou que a quadrilha usava cartões do Banco Nacional de Desenvolvimento Social (BNDES) e do ConstruCard, que é o financiamento da Caixa para a compra de materiais de construção, para cometer o crime.

“A fraude não é estrutural, ela é na comprovação da obtenção do dinheiro nos estabelecimentos. Eles [quadrilha] entravam em contato com os comerciantes e empresários para passar esses cartões e simular compras inexistentes”, relatou.

Em nota enviada ao G1 no dia da deflagração da operação, a assessoria de imprensa do BNDES informou que estava buscando mais informações sobre a investigação em curso para avaliar que medida deveria ser adotada em relação ao caso.

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