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Vocalista Mick Jagger usa camiseta com a bandeira do Brasil para finalizar o show histórico dos Rolling Stones em Copacabana, no Rio de Janeiro, que reuniu 1,2 milhão de pessoas – Foto: Patricia Santos/AP

O Rio de Janeiro jamais esquecerá. Nem o Brasil. Nem o planeta. Lanchas e barcos guardavam lugar em alto mar. Navios de cruzeiro mudaram o plano de viagem e ancoraram na baía de Guanabara com as luzes acesas como árvores de Natal. Para ver o show de um catamarã, pagava-se R$ 300. Os restaurantes de localização mais privilegiada –como aquele na esquina da rua Fernando Mendes com a avenida Atlântica– alugavam mesas no calçadão por R$ 200. Os hotéis montaram telões para seus clientes verem o show nos lobbies.

Era 18 de fevereiro de 2006, e os Rolling Stones fizeram a cidade do Rio de Janeiro ferver acima dos 32ºC estimados para aquela noite com a turnê “A Bigger Bang”. Tudo de graça, na praia. As estatísticas de público daquele hoje lendário concerto variaram entre 1,2 milhão e 1,5 milhão de pessoas, e até hoje persiste a controvérsia. Mais de 10 mil policiais foram destacados para a segurança da cidade no período, número só comparável ao Réveillon (o dobro do efetivo normalmente utilizado).

O show custou cerca de US$ 2,5 milhões (hoje, algo em torno de R$ 10 milhões). O palco tinha 24 metros de altura, equivalente a um prédio de oito andares, por 70 metros de largura. Havia 16 torres de som entre Copacabana e o Leme, e em sete delas foram colocados telões. No sambódromo, para saudar os visitantes ilustres, o ensaio da bateria da Imperatriz Leopoldinense teve uma versão carnavalizada de “(I Can’t Get No) Satisfaction”.

Os Stones chegaram ao Rio para aquele show cercados de uma expectativa que raramente se repetiu no país. Desembarcaram na sexta-feira de madrugada, às 3h30. Nos fundos do Copacabana Palace (e na frente), onde se hospedavam, havia uns 30 jornalistas. Um fotógrafo estava empoleirado em cima de um ponto de ônibus. Umas 400 pessoas, entre fãs, bêbados, insones e curiosos que os esperavam, ao descobrirem que poderiam já ter entrado em um esquema de Mercedes falsas, protestaram: “Beatles, Beatles!”, gritavam, com senso de humor tipicamente nacional. Mas era cascata: os Stones chegaram todos juntos num microônibus logo depois, cercados por batedores da PM em 15 carros e 30 motos. Um exagero.

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De óculos escuros, Keith Richards foi o primeiro a descer. Em seguida, Charlie Watts. A seguir, desceu Ron Wood, que acenou para o povo. Parecia que não havia mais nada. Após alguns minutos depois, ele em pessoa, todo serelepe, sir Mick Jagger, desceu e acenou para os dois lados da avenida Nossa Senhora de Copacabana, como um papa saindo de seu papamóvel.

Pela manhã, Ron Wood apareceria na sacada do Copacabana Palace com uma camiseta da seleção brasileira. Keith Richards surgiria sem camisa e com cigarro no canto da boca. Mick Jagger era aguardado em ensaio da Beija-Flor.

“Eu fui!”

“Deixaram a gente passar o som na boa e encontramos com eles para uma foto antes de entrar no palco. Espero que dessa vez seja assim também”, diz, rindo, o cantor e tecladista Sergio Britto, dos Titãs, que abriu a apresentação daquela noite para os ingleses. E agora, em 2016, os Titãs voltam a fazer o show de abertura no Morumbi, em São Paulo, nos próximos dias 24 e 27 de fevereiro. “O que impressiona no show dos Stones é a capacidade deles de transformarem um evento gigantesco num encontro íntimo com a plateia”, afirma Britto.

Em um ônibus de excursão com cerca de 40 pessoas, o advogado Angelo Renon chegou de Maringá (PR) ao Rio para o show, após mais de 15 horas de estrada, às 13h do dia 18 de fevereiro de 2006. “Lembro que tinha gente nas árvores e em cima até dos banheiros químicos. Por incrível que pareça, não vi uma briga sequer ou qualquer confusão”, recorda.

“Fiquei impressionado com o pessoal reunido nas sacadas dos prédios de Copacabana, e os imensos barcos lotados próximos à praia. Foi mágica a atmosfera do show”, conta Renon. “Eles estavam no Copacabana Palace e construíram uma passarela para que passassem até o palco. Deu para ver quando eles atravessaram e entraram. O público foi ao delírio antes mesmo de o show começar”.

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Cinquenta jornalistas estrangeiros estavam credenciados para cobrir o espetáculo. Milhares de turistas estrangeiros, a maioria dos países vizinhos, baixaram na Cidade Maravilhosa para o show. O argentino Ricardo González, 50, empregado em uma companhia de navegação, relembra sua experiência. “Em dezembro de 2005, com dois amigos, compramos passagens para passar uma semana no Rio em fevereiro do ano seguinte. Poucas semanas antes de viajar, ficamos sabendo que os Stones iriam dar um show de graça na praia. Foi a maior alegria do mundo”.

“Na noite anterior, fomos conhecer o palco. Nos chamou a atenção que não havia ninguém na praia. Na Argentina, um evento assim estaria tomado, tem gente que chega e faz fila uma semana antes”, diz. González e os amigos resolveram ir cedo para marcar lugar. Hoje, recorda, ficaram a 70 passos da grade –ele voltou no dia seguinte para contar. “Está entre os cinco maiores shows de todos os tempos e para mim hoje é um completo orgulho poder dizer: eu fui!”.

O norte-americano Tim Wheeler chegou ao Rio para seu 31º concerto da banda, à qual seguia ao redor do mundo. Disse que sua torcida era para que tocassem ao menos uma canção de Chuck Berry, Little Queenie ou Route 66. O estudante de psicologia Eduardo Domingues, com 21 anos na época, era peremptório: “Se você quer o melhor, tem que ir na fonte. O resto é água suja”.

Inesquecível até para quem não foi

Até quem não foi não esquece. O apresentador Cunha Júnior, da TV Cultura, que é um “stonemaníaco” de carteirinha, não é de perder show do grupo. Mas, naquele fevereiro, ele bolou um plano alternativo a Copacabana. “Achei que teria zilhões de pessoas, como de fato teve, e eu não conseguiria ver quase nada. O que eu fiz então? Fui para Buenos Aires e assisti às duas apresentações que eles fizeram no River Plate para um público insano”, lembra.

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A noite certa no momento certo –talvez por isso o acerto de terem incluído “Night Time is the Right Time”, cover de Roosevelt Sykes, no repertório, entre outras 20 canções que tocaram. Os Stones abriram aquele show com “Jumpin’ Jack Flash” e fecharam com “Brown Sugar”. Depois, voltaram para o bis com “You Can’t Always Get What You Want” e “(I Can’t Get No) Satisfaction”. Mick Jagger usou uma camiseta com uma bandeira do Brasil como estampa no peito e nunca pareceu tão emocionado em cena.

Maior show da história?

Curioso notar que o livro “Guinness dos Recordes” não coloca este como o maior show de rock da história (quem ocupa esse lugar é Rod Stewart, com um show na mesma Copacabana, em 1994, com 4,2 milhões de pessoas; mas, se considerarmos que Rod the Mod não é tanto rock assim…). É o maior público da carreira dos Stones, bem mais que o dobro daquela mitológica apresentação no Hyde Park de Londres em 1969, para 500 mil.

Mas quem esteve em Copacabana naquele dia tem a clara impressão de que não houve nada maior do que aquilo antes, porque era humanamente impossível colocar mais gente naquele 1,2 quilômetro quadrado de areia.

Ao final, foi uma rara jornada. Pacífica e com um climão de revival hippie. Os camelôs tinham vendido todos os seus souvenires não oficiais da banda. Todos. Uma camiseta com a inscrição “Rolling Stones – Eu fui” custava R$ 20. Um boné com a foto dos quatro integrantes da banda custava R$ 15. As cervejarias tinham latas com edições especiais comemorativas do show –algumas delas até hoje enfeitam coleções de stonemaníacos pelo Brasil afora.

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