A seleção brasileira feminina de polo aquático recorreu a uma plataforma de financiamento coletivo para tentar turbinar a preparação para os Jogos Olímpicos de 2016, que serão realizados no Rio de Janeiro. As meninas lançaram na última terça-feira (02) uma “vaquinha” virtual em busca de R$ 80 mil para viabilizar uma viagem de dez dias à Itália. A iniciativa vendeu 25 cotas e amealhou mais de R$ 3.800 até aqui, mas já serviu para escancarar um distanciamento entre o time e a CBDA (Confederação Brasileira de Desportos Aquáticos). A confederação diz que não foi consultada e não admite o modelo proposto pelas atletas, que querem ficar hospedadas em um hostel a fim de reduzir custos.

“Eu não posso expor patrocinador e governo federal ou até a credibilidade da CBDA numa ação dessas”, disse Ricardo Cabral, coordenador das seleções de polo aquático, em entrevista ao UOL Esporte. “Acho válido o que elas estão fazendo, mas o valor me chama atenção”, completou.

“Somos 15 meninas em busca de um sonho. Em nosso esporte é importante que existam jogos de boa qualidade constantes, o que infelizmente em nosso país não é possível realizar, devido ao número restrito de times. Portanto, para alcançar nossos objetivos é indispensável realizar intercâmbios com grandes potências do esporte, visando uma melhor preparação e assim obter um grande resultado nos Jogos Olímpicos”, diz trecho do comunicado no qual as jogadoras pedem a doação.

Em janeiro deste ano, as atletas da seleção brasileira enviaram um e-mail à CBDA pedindo autorização para captar recursos. Receberam autorização da confederação, que entendeu na mensagem um aval apenas para prospectar patrocinadores. A ideia específica de uma “vaquinha” não foi debatida.

“Eu particularmente tenho uma opinião: isso dá a entender que o esporte não tem nada, o que faz mal até para os patrocinadores. Esse tipo de ação é algo que eu não faria e acho que esse é um marketing negativo para a modalidade. Elas poderiam ter feito de outra maneira, e não uma ‘vaquinha’ para ficar em hostel. Isso não existe”, ponderou Cabral.

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A preocupação do dirigente é o nível de acomodação que será imposto às atletas pelo baixo valor almejado. A seleção brasileira feminina de polo aquático fará na semana que vem uma viagem de 15 dias para Califórnia e Texas, nos Estados Unidos, e gastará pelo menos R$ 320 mil com passagens, hospedagem e alimentação das 15 jogadoras e do estafe.

“E se acontecesse alguma coisa? No primeiro momento as pessoas iriam para o jornal dizer que era culpa da confederação. Jamais vou colocar o grupo de atletas num hostel. As condições vão ser ruins, e tudo que der errado vai cair nas costas da confederação”, argumentou Cabral. “Eu também posso fazer uma viagem com R$ 80 mil, mas em que condições? Ficar em hostel é mole”, adicionou.

Em conversa por e-mail com o UOL Esporte, as atletas contestaram alguns pontos da versão de Cabral. Segundo elas, a CBDA ainda não informou detalhes sobre o embarque para os Estados Unidos. “Não nos foi dado um planejamento para este ano olímpico. Como não sabemos quais viagens realizaríamos e temos necessidade de jogos em alto nível com frequência, decidimos iniciar o financiamento coletivo”, explicaram as meninas.

O veto da CBDA ao sacrifício proposto pelas atletas é apenas uma demonstração do distanciamento que existe hoje no relacionamento entre confederação e seleção feminina. O desgaste tem como principal natureza a prioridade financeira dada pela entidade esportiva ao time masculino, que os dirigentes entendem ser mais candidato a uma medalha na Rio-2016 – a equipe nacional foi medalhista de bronze na última Liga Mundial da modalidade.

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“Claro que o masculino tem um investimento maior e isso gera um desconforto, mas a prioridade foi dada a eles. Isso não quer dizer que o feminino tenha sido largado. O masculino tem um retorno maior e teve um investimento maior. Temos mais recursos humanos para isso, até porque tínhamos atletas jogando fora. O feminino é um universo pequenininho, que teve um Troféu Brasil com três equipes em 2015 porque duas de São Paulo boicotaram. Praticamente a seleção toda, que joga no Pinheiros, boicotou. Não tivemos o Brasileiro sub-17 no ano passado por falta de equipes”, comparou o coordenador das seleções.

“O polo aquático feminino não é um esporte profissional como o masculino. Nós achamos que existiria uma mudança quanto a isso no ciclo olímpico, mas continuou o mesmo. Precisamos de ajuda de família e amigos para nos sustentar”, disseram as atletas em e-mail enviado à reportagem.

A viagem à Itália é um exemplo do orçamento limitado. Os treinos estavam no calendário proposto à CBDA por Pat Oaten, canadense que é técnico da seleção feminina desde 2013. A confederação, que vive fase de contenção de gastos, não incluiu a excursão no planejamento até a Rio-2016.

“Nos foi dito que por causa de um aumento de imposto a CBDA não teria verba disponível para bancar nossa viagem de preparação para a Liga Internacional. Outro assunto importante é que a CBDA alega que o Torneio Internacional que aconteceu em novembro do ano passado teve um gasto muito alto, que inclusive prejudicou as viagens que estavam marcadas para 2016”, relataram as jogadoras.

“Além disso, em 2014, estávamos nos preparando para um torneio que seria realizado na Holanda, e que o Brasil foi convidado a participar. Infelizmente, esta viagem foi cancelada de última hora, dias antes de embarcarmos. Nos foi dito, no final de 2015, que nesse ano olímpico teríamos uma viagem de treinamento a cada mês. Agora, em 2016, já em fevereiro, estava programado para viajarmos para um período de treinos na Califórnia e que embarcaríamos no dia 4. Infelizmente, até agora não sabemos a data de embarque. Temos receio de que isso aconteça novamente, por isso o financiamento coletivo”, justificaram.

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“Nem tudo que o técnico pede a gente pode atender. O projeto foi feito dois anos atrás, mas desde então houve uma variação cambial muito grande”, encerrou Cabral.

A seleção brasileira feminina de polo aquático obteve medalha de bronze nas duas últimas edições de Jogos Pan-Americanos. Como sede, o país já está classificado para disputar a modalidade na Rio-2016.

Neste ano, além dos Jogos e da competição nos Estados Unidos, a seleção feminina participará do Campeonato Sul-Americano do Paraguai, em março, do evento-teste dos Jogos, em abril, e da Superfinal da Liga Mundial, em junho. As ações constam em calendário divulgado pela CBDA em seu site.

Procurado para comentar a situação, o COB (Comitê Olímpico do Brasil) afirmou que tem conhecimento da campanha iniciada pela seleção feminina e diz que “o crowdfunding é uma estratégia de captação de recursos cada vez mais utilizada em todo o mundo e em diversas áreas, não apenas no esporte. É natural que a sociedade e o esporte brasileiro comecem a usar essa ferramenta”.

O órgão disse ainda que tem a estimativa de repasse de cerca de R$ 4,5 milhões, oriundos da Lei Agnelo/Piva, para a Confederação Brasileira de Desportos Aquáticos em 2016, além de fornecer serviços ligados às ciências do esporte, mas que a CBDA elenca prioridades de acordo com seu orçamento.

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