Foto: Julianne Caju
Foto: Julianne Caju

“Nós acreditamos que é possível lutar pela melhoria do ensino público do estado de Mato Grosso. Por isso ocupamos e estamos resistindo. Não é fácil, mas continuamos aqui por uma escola gratuita e com qualidade”, afirma Amanda de Oliveira, de 18 anos, aluna da Escola Estadual Elizabeth de Freitas Magalhães. Ela faz parte do grupo dos estudantes secundaristas que ocupam há um mês a Escola Estadual Ramiro Bernardo da Silva, em Rondonópolis/MT. A principal pauta de reivindicação deles é a retirada do projeto do governo que prevê a parceria público-privada (PPP), ou seja, eles são contra a entrega de gestão de escolas públicas à iniciativa privada.

Na visão da estudante Amanda, o saldo de um mês de ocupação é positivo, pois mostra que os estudantes estão a par dos acontecimentos que envolvem o ensino público, demonstra a força dos jovens, reforça a luta dos professores que estão em greve e comprova o quanto os estudantes lutam pelos seus ideais. “Muita gente achou que o nosso movimento duraria somente uma semana. Mas não, estamos aqui há 30 dias e vamos permanecer até o tempo que for necessário. Estamos dando a cara à tapa não só por nós, mas também por todos os alunos, professores, trabalhadores da área administrativa e dos serviços gerais das escolas, enfim, defendemos o ensino público que é de todos, dos que frequentam a escola e de toda a sociedade.”

A rotina dos estudantes na escola ocupada, é segundo Amanda, baseada em planejamento, organização, divisão de tarefas e acolhimento das pessoas que vão dar apoio ao movimento. Várias atividades foram realizadas neste um mês de ocupação. Oficinas, palestras, campeonatos esportivos e panfletagens foram algumas das ações feitas por estudantes secundaristas em parcerias com professores da rede estadual de ensino e da Universidade Federal de Mato Grosso (UFMT), bem como com estudantes universitários e membros da comunidade.

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Todas essas atividades e a convivência diária com os outros estudantes, são para Debora Machado, de 16 anos, da Escola Estadual Elizabeth de Freitas Magalhães, importantes lições e muito aprendizado para a vida. Ela diz que aprendeu a exercitar o diálogo como forma de estar mais próxima das pessoas, especialmente dos outros estudantes que não estão na ocupação. “A panfletagem foi o momento de sairmos para rua e explicarmos para a comunidade local o motivo de nosso movimento. Alguns nos apoiaram e até bateram palmas para nós. Outros não quiseram nem nos atender. Mas mesmo assim não desistimos de informar a comunidade e também de convidá-los para lutar conosco por algo que é de todos: a escola pública. Foi bom poder explicar para as pessoas as causas da nossa luta. Foi bom poder conversar!”

A manutenção da limpeza da escola Ramiro também faz parte do dia-a-dia dos estudantes que estão acampados no estabelecimento de ensino. Eles ocupam e zelam pelo patrimônio da escola. Além disso, revezam também nas preparações das refeições do grupo. “Quem não sabia cozinhar, já aprendeu. Quem nunca tinha cultivado uma horta, teve oportunidade de aprender como adubar e plantar. Quem tinha vergonha de falar em público, já não tem. São realmente 30 dias de aprendizagem para a vida inteira”, relata a estudante Débora.

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Para os estudantes, a ocupação está dando à eles a oportunidade de aprender diferentes conhecimentos, de compartilhar vivências e também de ter outra ligação com a escola, para além da sala de aula. “Que bom seria se pudermos continuar tendo oficinas e palestras sobre vários assuntos e de um jeito diferente. Estamos percebendo que é possível que os alunos venham para a escola para fazer várias atividades e não só sentar em frente à lousa”, destaca a estudante Débora.

Gustavo Henrique, de 12 anos, estudante da escola Ramiro, é um dos frequentadores das atividades da ocupação. Ele aprendeu a fazer artesanato, malabares e tocar instrumento musical. “Acho tudo muito interessante e pode me ajudar no presente e no meu futuro. Deveria ter essas atividades quando as aulas voltarem.” Guilherme Carvalho, 13 anos, também da escola Ramiro, conta que está na escola para defender a escola junto com os estudantes acampados. Ele fez oficinas de pintura, desenho e participou de campeonato de vôlei. “Eu não entendia muito bem o que estava acontecendo. Aí resolvi vir para saber. Eu não quero pagar para estudar. Então, tenho que lutar para que isso não aconteça. Aprendi que para conseguirmos algo temos que enfrentar e lutar.”

Para os próximos dias, os estudantes estão organizando outras ações. De acordo com Eduardo dos Santos, de 15 anos de idade, aluno da Escola Estadual Adolfo Augusto de Moraes, eles pretendem realizar o Festival de Bandas Secundaristas e aulas para os alunos que farão o Exame Nacional do Ensino Médio (Enem). “Para que estas atividades aconteçam contamos com o apoio dos estudantes secundaristas que são músicos e também com professores que queiram doar uma aula para nosso movimento”, conclama Eduardo. “As aulas podem aproximar os alunos que não estão aqui. É isso que queremos, que mais estudantes venham ocupar a escola e juntos nos preparar para o Enem”, reforça Pietra Carvalho, 16 anos, aluna da Escola Estadual Major Otávio Pitaluga.

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Outra pauta de reivindicação dos estudantes secundaristas acampados na Escola Ramiro é a instalação de uma Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) para apurar o desvio de R$ 56 milhões da Secretaria de Estado de Educação (Seduc). Esse montante desviado daria para construir 14 escolas padrão com capacidade de atendimento de 1.700 alunos em cada escola. Os estudantes secundaristas também incluíram na pauta de reivindicação o pagamento do Reajuste Geral Anual (RGA) aos Servidores Públicos do Estado de MT, do qual o governo anunciou que não irá pagar de acordo com a reposição da inflação anual. A ocupação na Escola Ramiro tem também apoio da Associação Mato-grossense dos Estudantes (AME) e faz parte do movimento nacional “Primavera Secundarista”. Em Mato Grosso 26 escolas estão ocupadas desde o início da greve dos profissionais da educação.

 

 

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