24 de novembro de 2020
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    DJ Marshmello: O que está por trás da máscara da atração mais misteriosa do Lollapalooza?

    Imagem: Lollapalooza 2017
    Mascarado, o DJ Marshmello tocará no Lollapalooza no sábado (25), das 20h às 21h (Foto: Divulgação)

    A nova cara da música eletrônica tem enormes olhos em forma de X, um sorriso meio sinistro e um quê de meme da internet. Para quem ainda não a conhece, a edição deste ano do Lollapalooza, que começa neste sábado (25) em São Paulo, é uma boa oportunidade. Só não espere ver a verdadeira face do DJ Marshmello.

    A atração mais enigmática do Lolla cobre o rosto com uma espécie de balde em forma de marshmallow desde que começou a aparecer nos festivais internacionais de música eletrônica, em 2015. Sites especializados no gênero ligam sua identidade à do DJ americano Chris Comstock, também conhecido como Dotcom, mas tudo não passa de um boato nunca confirmado.

    O músico, que estourou com um remix de “Where are ü now”, hit de Jack Ü e Justin Bieber, não dá entrevistas e pouco se sabe sobre sua origem. Em uma biografia divulgada pelo Lolla, ele é econômico ao explicar por que decidiu esconder o rosto.

    Marshmello surgiu na esteira de outros DJs mascarados, entre eles o canadense Deadmau5 e o duo francês Daft Punk. Todos eles seguem uma longa linhagem de artistas que fazem do mistério seu maior merchandising – aí estão nomes como Sia, Kiss, Slipknot e Gorillaz. Mas o que está por trás do enigma?

    O que diz um especialista

    A maioria dos mascarados cita a privacidade ou a “valorização da arte em detrimento da imagem” como motivação. Mas para Thiago Soares, professor e pesquisador de música e cultura pop da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE), é impossível definir um elemento único que explique o comportamento de todos esses artistas. Ele faz algumas análises.

    “No caso do Kiss, por exemplo, a maquiagem forte esconde até a idade deles. Eles envelhecem, mas não sofrem a repercussão disso. A máscara também redime um pouco esse lugar”, avalia. “Sobre a Sia, acredito que haja de fato uma estratégia poética. Também há uma crítica ao formato da música pop, ao artista como uma figura emblemática e central.”

    Mas e o Marshmello? “Uma interpretação pode ser a crítica à supervalorização dos DJs, a essa coisa do DJ popstar”, analisa o pesquisador. “Me parece que ele também usa uma estética ligada à cultura digital, do emoji. A lógica do mascarado, do anônimo, também está muito presente na internet, com elementos como a máscara de ‘V de vingança’, o fake, o post anônimo.”

    Soares também lembra que o culto às máscaras é bem mais antigo que qualquer astro do pop. “Não é uma coisa contemporânea. Faz parte da tradição do entretenimento a dimensão circense, cênica, que flerta com o teatro”, explica. “Os atores usavam as máscaras para encenar emoções. Essa ideia de esconder o rosto surgiu a partir do crescimento da visibilidade.”

    O ponto de vista de um mascarado

    Se as máscaras têm tudo a ver com internet, é claro que as celebridades desse universo também não perderiam a oportunidade de criar seus próprios enigmas. Thiago “Zangado” é o brasileiro anônimo mais famoso entre os youtubers. Ele esconde o rosto há 7 anos, desde que iniciou seu canal – hoje com 3,5 milhões de seguidores.

    “Moro em uma cidade pequena e sou engenheiro. Não queria que a fama interferisse na minha vida e no meu trabalho”, justifica. “Concordo também com o ponto de vista do Slipknot e do Daft Punk, que querem que os fãs se concentrem nas músicas deles. No meu caso, nas coisas que eu digo e no exemplo que eu passo.”

    Zangado diz acreditar que “as ideias são mais importantes que a imagem”, principalmente quando se fala com jovens. Por isso, acha que a máscara ajuda a passar as mensagens certas. “Todo artista deve ter um legado. Quando vou a um evento, sempre procuro mostrar a importância dos estudos, do relacionamento com a família, do respeito pelas diferenças… É o meu legado.”

    Para o pesquisador da UFPE, é preciso ter cuidado com o discurso do “não quero ser famoso”, especialmente na internet, onde a relação entre as máscaras e a vida real é ainda mais turva. “No caso dos youtubers, parece muito um discurso de marketing pessoal, de querer se diferenciar dos outros”, avalia. “O artista tem um palco. Para o youtuber, o palco é a vida dele. Estamos entrando em um momento de tanta visibilidade que o privado virou cênico. É a tirania da intimidade.”

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