Imagem: Alexandre Nero
Foto: Reprodução

Espetáculo recém-estreado na cidade do Rio de Janeiro (RJ), atual parada de turnê nacional que já passou por outras cidades desde 2016, O grande sucesso não é um musical de teatro no molde mais ortodoxo do gênero. Mas tem música em cena. Nada menos do que onze, listadas com os respectivos compositores no programa da peça. E tem um diretor musical, Gilson Fukushima. Mas o termo mais adequado para conceituar a peça talvez seja concerto dramatúrgico. No caso, a música geralmente ajuda a reforçar o humor cáustico, não raro cínico, do texto do diretor Diego Fortes. O grande sucesso discorre com sarcasmo sobre a dicotomia fracasso / sucesso enquanto mostra um grupo de atores loosers na coxia de um teatro, filosofando sobre a vida e o próprio teatro.

Sim, o texto é metalinguístico e extrai riso da tragicomédia vivida pela trupe, em odisseia traduzida pelos versos da música Quando sai o cachê? (Alexandre Nero, Carmen Jorge, Carol Panesi, Eliezer Vander Brock, Edith de Camargo, Fábio Cardoso, Fernanda Fuchs, Gilson Fukushima, Marco Bravo e Rafael Camargo), atualíssima em tempos de calotes públicos. O elenco empurra pela goela da plateia um texto inteligente, mas de difícil digestão para espectadores habituados ao feijão-com-arroz do teatro mais ralo. A presença de Alexandre Nero potencializa a ironia, porque, a rigor, O grande sucesso poderia estar sendo encenado em horário alternativo de palco situado fora do mainstream teatral. Mas está no horário nobre de um teatro de shopping (o Teatro Clara Nunes do Shopping da Gávea) porque o protagonista é um ator de novelas da TV Globo que conquistou o grande sucesso ao estrelar seguidamente duas tramas das 21h, Império (2014/ 2015) e A regra do jogo (2015 / 2016).

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Essa peculiaridade intencional de O grande sucesso torna o jogo de cena mais sedutor. Os atores jogam o tempo todo na cara da plateia (majoritariamente feminina e de meia-idade) que a peça encenada é “confusa”. Não, o concerto teatral não é confuso, porque há toda uma organicidade na construção da dramaturgia dividida em quadros, mas o texto de O grande sucesso faz questão de vir para confundir a cabeça dessa plateia que está ali para ver Nero, e não para explicar e diluir o conteúdo da peça. A graça e a força do espetáculo residem também nessa interação risível entre palco e plateia.

Nesse contexto cínico, a música reforça a (aparente) confusão em roteiro musical que inclui o tema instrumental Travessias (Fabio Cardoso), a chanson Je nóse pas réver (Edith de Camargo), a vivaz No lado de cá e de lá (Alexandre Nero e Edith de Camargo) – música que evoca o clima das fanfarras, em sintonia com o espírito musical de parte da obra autoral de Nero, também cantor e compositor desde que entrou em cena antes de conquistar o grande sucesso – e até um tema do repertório indie d’A Banda Mais Bonita da Cidade, Potinhos (Luiz Felipe Leprevost e Thayana Barbosa, 2013). Ainda fora da seara autoral do elenco, o roteiro musical inclui , melódica canção da lavra do compositor, arranjador e multi-instrumentista Antonio Saraiva. é cantada por Nero quando já estão em cena questões filosóficas e existenciais derivadas da discussão sobre a relatividade dos conceitos de fracasso e sucesso.

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Aliás, a ironia é que O grande sucesso parece almejar o fracasso, mas vem fracassando na tentativa porque, no teatro, (às vezes, nem sempre…) basta a presença de bem-sucedido ator de novelas de TV para encher uma plateia e carimbar um espetáculo com o rótulo “Sucesso!”. Contudo, o maior sucesso da produção é provocar a plateia com peça falsamente confusa que, na verdade, tira onda com a noção de sucesso e com quem vai ao teatro somente para ver o ator da TV. Nesse sentido, O grande sucesso é um grande sucesso. (Cotação: * * * *)

 

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