Ex traficante Edilson Rafael dos Santos - Foto/Marlene Bergamo/ Folhapress
Ex traficante Edilson Rafael dos Santos – Foto/Marlene Bergamo/ Folhapress

Ex-traficante conhecido da região, ele deixou o presídio humanizado, no qual passou por uma transformação que o fez abandonar a vida no crime. Se antes o trabalho ilegal chegava a lhe render R$ 200 mil por mês, com o serviço de pedreiro que conseguiu ao sair da Apac ele ganhava um salário mínimo por semana.

Mas Edilson quis fazer mais: foi trabalhar com a metodologia que o resgatou da criminalidade e atua na recuperação de muitos jovens que ele próprio aliciou para o crime.

Comecei no crime aos 12 anos. Era aviãozinho [transportava drogas a mando de traficantes] para manter o vício. Comecei com maconha. Tinha seis irmãos e só eu peguei o caminho errado. Meu pai não aceitou e me colocou para fora de casa. Com 14 anos, fui morar na rua, e quem me abraçou foi o crime.

Aos 30 anos, fui para a cadeia e fiquei um ano e quatro meses. Depois, tive uma segunda condenação de dois anos e oito meses por tráfico. Eu pensava: isso aqui é cadeia ou caixão. Quero sair.

Eu era patrão. Aliciei muitos recuperandos que hoje encontro presos aqui na Apac. Alguns afundaram ainda mais do que eu no crime. Agora tento recuperá-los, como um dia o doutor Valdeci [Ferreira, presidente da Fbac (Fraternidade Brasileira de Assistência aos Condenados)] me ajudou quando fui transferido para esta mesma unidade.

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Fui tocado. Eu tinha um bloqueio e, um dia numa conversa, ele me disse que eu tinha que me perdoar e perdoar os meus pais [relata chorando]. Eu disse para ele que meu pai nunca me deu um abraço, nunca me disse: ‘Eu te amo’. Ele respondeu: ‘Faz isso você’. Eu fiz. Foi Deus que o colocou em minha vida e me transformou.

Hoje sou o maior amigo do meu pai, que está com 77 anos. Todos os dias tomamos café juntos.

Acho que a recuperação de um criminoso como eu fui envolve a sociedade inteira mais os políticos. Na minha época de moleque, não tinha trabalho no meu bairro. Agora, tem centro comunitário, aula de dança.

Eu tinha parado os estudos na quarta série. Voltei a estudar quando cumpri pena na Apac. Na primeira oportunidade que passei por aqui, foi muito rápido e acabei voltando para o crime. Mas ficou a semente. Voltei para cadeia e pedi uma nova oportunidade para mudar de vida.

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Em uma das jornadas que fazemos aqui na Apac, ouvi dois testemunhos de presos que me ajudaram a quebrar o bloqueio em relação ao meu pai. Um contou que tinha saído da cadeia para enterrar a mãe e outro disse que tinha visto a mãe morrer na fila para visita-lo na prisão. Decidi que não ia deixar isso acontecer comigo [se emociona novamente].

Eu saí daquele encontro com a certeza de que meus pais iam saber que eu mudei. E foi uma mudança radical. Abandonei todas as amizades. Até hoje sou um recuperando. Voltei a ser pedreiro, fiz cursos.

No crime, tinha mês que ganhava R$ 200 mil. Trabalhando, tirava um salário mínimo por semana. Seu Antônio, um construtor aqui da cidade que é voluntário na Apac, me contratou e me ajudou a caminhar fora do presídio.

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Voltei para a Apac há dois anos e seis meses, como encarregado de segurança. Quero retribuir. Sou católico, tenho um relacionamento com Deus. Antes não acreditava em nada.

Fui me libertando e hoje cuido dos meus cinco filhos e dois netos. Adotei os dois filhos de minha ex-companheira, que foi assassinada pelo tráfico por causa de uma dívida de R$ 70. Ela deixou uma menina de um ano e um menino de seis meses, que hoje estão com 21 e 19 anos.

Eu só não morri porque Deus teve misericórdia de mim. O assassino da minha ex-mulher está preso. Se ele vier para a Apac, vou receber ele aqui como todos os demais e trabalhar para ele mudar de vida. Como diz o Valdeci, a Apac é a casa do perdão.

Como encarregado de segurança, eu cuidei aqui do meu maior inimigo na época do tráfico, que tentou me matar. Infelizmente, quando ele saiu da prisão voltou para o crime e morreu. Não teve uma segunda chance como eu tive.

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