A carteira de trabalho de Rodrigo, suja de sangue - Foto: Domingos Peixoto
A carteira de trabalho de Rodrigo, suja de sangue – Foto: Domingos Peixoto

Um soldado da UPP Babilônia/Chapéu Mangueira fez oito disparos com uma carabina Taurus calibre .40 durante a ação em que o garçom Rodrigo Serrano, de 26 anos, foi morto. A informação faz parte do Inquérito Policial-Militar (IPM), aberto pela Corregedoria da PM, que investiga o caso. Rodrigo foi atingido por três disparos — um na barriga, um no quadril e um na coxa esquerda — na noite da última segunda-feira, no Chapéu Mangueira, no Leme.

Ao todo, nove soldados da UPP participaram da ação, mas, de acordo com os depoimentos dos agentes prestados à Corregedoria, somente um deles atirou. Os agentes integram dois Grupamentos Táticos de Polícia Pacificadora (GTPP) da UPP — grupo de agentes com perfil mais operacional. De acordo com a versão dos PMs, os policiais “foram recebidas com disparos de arma de fogo na localidade conhecida como Bar do Davi na comunidade do Chapéu Mangueira” e um dos agentes teria revidado. A carabina usada pelo PM foi apreendida no dia do crime, com 22 munições intactas. No local, os policiais também afirmam ter apreendido um rádiocomunicador.

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Entretanto, uma testemunha, que prestou depoimento nesta terça-feira a promotores que atuam junto à Auditoria de Justiça Militar, desmente a versão dos policiais. O homem, morador da favela, viu o momento em que Rodrigo foi atingido e, segundo ele, não houve confronto entre traficantes e policiais no local, apenas uma rajada de tiros foi disparada por um dos policiais em direção à vítima. Outros moradores afirmam que os PMs teriam confundido o guarda-chuva que o garçom carregava com um fuzil.

Em um ponto, a versão da testemunha coincide com a dos policiais: ele também afirma que só um dos policiais atirou. No momento do disparo, de acordo com o depoimento, Rodrigo estava de pé e segurava uma cesta de madeira com frutas. O guarda-chuva estava preso entre suas pernas. Além de Rodrigo, um jovem de 21 anos foi atingido de raspão na barriga. O guarda-chuva sujo de sangue também foi apreendido. Após o garçom ser baleado, os próprios policiais o levaram para o Hospital Miguel Couto, onde já chegou morto.

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O depoimento da testemunha também faz parte do Inquérito Policial-Militar aberto pela Corregedoria da PM para investigar o caso. Além do morador da favela, a viúva de Rodrigo e o policial que fez o disparo também prestaram depoimentos, respectivamente ao MP e à Corregedoria.

Outro inquérito foi aberto pela Polícia Civil e vai ficar a cargo da Delegacia de Homicídios (DH). Na noite do crime, os policiais que participaram da ação prestaram depoimento na 12ª DP (Copacabana). Todos afirmaram que foram atacados a tiros enquanto avançavam pela favela e um dos agentes teria revidado. Como só os agentes foram ouvidos na delegacia, o caso foi registrado como homicídio decorrente de intervenção policial.

“Foram três tiros: dois na perna e um na barriga. Eles atiraram para matar. Depois, viram que erraram”, afirmou Thayssa Freitas, esposa de Rodrigo, ao sair da Assembleia Legislativa, onde foi atendida na Comissão de Direitos Humanos. Quando seu marido foi atingido, ela estava com os dois filhos, um de 4 anos e outro de dez meses, dentro de uma Kombi subindo a favela. Ela e Rodrigo haviam saído para fazer compras e estavam voltando para casa. Como a Kombi estava cheia, o garçom optou por subir a favela a pé.

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— Ele estava trabalhando há três meses num restaurante em Ipanema. No dia em que ele foi morto, ele foi trabalhar. Saiu do trabalho às 17h e foi para casa. Tomou um banho e saímos. Por conta de uma polícia mal preparada, agora, ele não vai poder ver os filhos crescerem, o que era um sonho para ele — disse Thayssa.

No momento em que foi baleado, Rodrigo estava com a carteira de trabalho no bolso. O documento ficou manchado de sangue. O contrato mais recente foi assinado no dia 15 de julho, quando ele passou a trabalhar como garçom no restaurante em Ipanema.

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