As ruas de Caracas, capital da Venezuela, foram tomadas por confrontos nesta terça-feira (30) horas após o presidente autoproclamado do país, Juan Guaidó, ter convocado a população a se manifestar contra o regime de Nicolás Maduro. Guiadó anunciou o apoio de militares para derrubar o governo e deu início à fase final da chamada Operação Liberdade.

A imprensa local cita 57 feridos na capital venezuelana.

Já Maduro acusa os oposicionistas de tentativa de golpe. Ele postou mensagem na qual diz que militares demonstraram “total lealdade ao povo, à Constituição e à Pátria”. Também convocou às ruas a população que o apoia. “Venceremos”, escreveu o chavista em rede social.

Em Nova York, o embaixador venezuelano na Organização das Nações Unidas (ONU), Samuel Moncada, afirmou que “o governo do presidente Nicolás Maduro derrotou todas as tentativas de criar uma guerra civil”, em seu país, referindo-se à movimentação liderada por Guaidó. Disse ainda o país foi alvo de um típico golpe articulado pelos Estados Unidos na América Latina – e que desta vez não teria ido adiante.

Ainda pela manhã, grupos de manifestantes tentaram entrar na principal base aérea do país, a Generalísimo Francisco de Miranda, conhecida como La Carlota. O local – que fica na região leste de Caracas, a cerca de 13 quilômetros do Palácio Miraflores, sede do governo – foi escolhido como ponto de apoio a Guaidó.

Manifestantes forçaram as grades, mas os militares responderam com disparos de bombas de gás. Carros blindados da polícia também avançavam sobre manifestantes.

Um dos veículos chegou a acelerar sobre a multidão, atropelando pessoas e provocando uma correria que derrubou mais gente perto da La Carlota (veja acima). Logo após o carro avançar, uma chama foi vista sobre o veículo. Não era possível identificar, no entanto, de onde partiu o fogo.

Oponentes ao governo de Nicolás Maduro entram em confronto com militares diante da base aérea 'La Carlota', em Caracas - Foto: Fernando Llano/AP
Oponentes ao governo de Nicolás Maduro entram em confronto com militares diante da base aérea ‘La Carlota’, em Caracas – Foto: Fernando Llano/AP

O que aconteceu até agora
Presidente autoproclamado Juan Guaidó convocou população às ruas e disse ter apoio de militares.
Presidente Nicolás Maduro afirmou ter conversado com todos os comandantes das chamadas Redi (Regiões de Defesa Integral) e Zodi (Zona de Defesa Integral), que, segundo ele, manifestaram “total lealdade ao povo, à Constituição e à pátria”.
Líder da oposição Leopoldo López, que estava em prisão domiciliar após decisão sob o regime de Maduro, foi liberado e circulou pelas ruas ao lado de Guaidó. Mais tarde, o ministro das Relações Exteriores chileno confirmou que López está na residência da missão diplomática do Chile.
Diosdado Cabello, que comanda a Assembleia Constituinte pró-Maduro, convocou apoiadores do governo a se dirigir para o Palácio presidencial de Miraflores.
Policiais dispararam bombas de gás contra manifestantes em Caracas. Segundo TV estatal, eles tentaram dispersar “golpistas”.
O presidente Jair Bolsonaro reafirmou apoio a Guaidó e disse que o Brasil “acompanha com bastante atenção” a situação.

O vice-presidente Hamilton Mourão disse que crise chegou ao limite e que ou Guiadó será ou preso ou Maduro vai embora.
Já o ministro das Relações Exteriores, Ernesto Araújo, afirmou que o Brasil espera que militares venezuelanos apoiem a “transição democrática” no país vizinho.
25 militares venezuelanos, nenhum de alta patente, pediram asilo na embaixada brasileira em Caracas.

Multidão de manifestantes pró Maduro participa de protesto em defesa do presidente perto do Palácio Miraflores, em Caracas, a cerca de 10 km da base aérea 'La Carlota' - Foto: Matias Delacroix/AFP
Multidão de manifestantes pró Maduro participa de protesto em defesa do presidente perto do Palácio Miraflores, em Caracas, a cerca de 10 km da base aérea ‘La Carlota’ – Foto: Matias Delacroix/AFP

O presidente americano, Donald Trump, postou em rede social mensagem na qual diz acompanhar de perto a situação e que “os Estados Unidos apoiam o povo da Venezuela e a sua liberdade”.
O embaixador venezuelano em Washington nomeado por Juan Guaidó, Carlos Vecchio, disse que os EUA não tiveram nenhum papel na coordenação do movimento desta terça.
Cuba, Bolívia e Rússia criticaram a ação de Guaidó.
O embaixador venezuelano na ONU, Samuel Moncada, disse que o governo Maduro derrotou “tentativa de criar guerra civil”.

Nas ruas, mais cedo nesta terça, militares já haviam disparado bombas contra manifestantes. De acordo com a rede de TV estatal Telesur, policiais tentaram dispersar com gás lacrimogêneo aqueles considerados “golpistas”.

A base La Carlota, onde aconteceram conflitos, foi declarado, em 2002, zona de segurança militar. Os voos para lá estão proibidos desde 2014, de acordo com o jornal colombiano “El Mundo”.

Guaidó surpreendeu ao aparecer nas imediações de La Carlota em companhia de Leopoldo López, o líder da oposição que estava em prisão domiciliar e foi libertado – ele reapareceu em público pela primeira vez justamente nesta terça.

Depois, o ministro das Relações Exteriores chileno, Roberto Ampuero, confirmou que López foi para a residência da missão diplomática do Chile, acompanhado por sua mulher e uma filha do casal.

Manifestante apoiador de Guaidó atira de volta uma bomba de gás lacrimogêneo atirada por forças de Maduro durante confronto em frente à base aérea 'La Carlota', em Caracas - Foto: Matias Delacroix/AFP Reação internacional
Manifestante apoiador de Guaidó atira de volta uma bomba de gás lacrimogêneo atirada por forças de Maduro durante confronto em frente à base aérea ‘La Carlota’, em Caracas – Foto: Matias Delacroix/AFP Reação internacional

Reação internacional
Brasil, Estados Unidos e Colômbia apoiaram o movimento contrário a Maduro. O presidente Jair Bolsonaro afirmou, por uma rede social, que o país “acompanha com bastante atenção” a situação e está “ao lado do povo da Venezuela, do presidente Juan Guaidó e da liberdade dos venezuelanos.”

O secretário de estado dos Estados Unidos, Mike Pompeo, afirmou, também por meio de rede social, que o governo norte-americano “apoia plenamente o povo venezuelano em sua busca por liberdade e democracia”. “A democracia não pode ser derrotada”, diz o post. Cuba, Bolívia e Rússia criticaram.

A chancelaria russa acusou a oposição venezuelana de usar métodos violentos de confronto e pediu para que a violência pare. Os problemas do país devem ser resolvidos por meio de negociações, sem condições prévias, segundo a agência Interfax.

Crise na Venezuela
A tentativa de derrubar o regime de Nicolás Maduro é o mais recente capítulo na profunda crise política da Venezuela. Há mais de 15 anos, o país enfrenta uma crescente crise política, econômica e social.

A Venezuela vive um colapso econômico e humanitário, com inflação acima de 1.000.000% e milhares de venezuelanos fugindo para outras partes da América Latina e do mundo.

Neste mês, diversas interrupções no fornecimento de energia e água ameaçaram uma catástrofe sanitária.

A ONG norte-americana Human Rights Watch disse que a saúde do país está sob “emergência humanitária complexa”.

Comentários

*Os comentários aqui publicados são de responsabilidade dos usuários e não representam a opinião do site.