Pouco antes dos 30 minutos do primeiro tempo, as câmeras mostraram uma imagem rara no futebol, durante uma partida: o técnico Fernando Diniz, do Fluminense, aparece de pé, prostrado em frente ao banco, de olhos fechados, quase que alienado do jogo.
Parecia estar ao mesmo tempo envergonhado e surpreso com a surra que sua equipe tomava do Grêmio. Foram três gols em 21 minutos.

O técnico deveria estar pensando no que poderia ser feito e o que aconteceria com ele, com suas ideias de montar uma equipe mais solta. Sentiu a fúria da realidade bater à sua porta, implacável.
Deve ter sentido aquela sensação de fragilidade, de estar à mercê do destino. Os 7 a 1 certamente vieram à sua mente. Deve ter ficado temeroso com a possibilidade de tomar mais gols.

Àquela altura, seus temores faziam sentido. As redes sociais já estavam inundadas de mensagens detonando a capacidade do treinador. Os dirigentes do Flu, muito possivelmente, já até estavam pensando na demissão de Diniz que, até então, implementara uma filosofia de jogo louvável, mas sem resultados práticos. O time vinha de três derrotas.

Então veio o gol de Yonny González, descontando o placar. Não foi um gol aleatório. Foi uma resposta dos deuses do futebol de que o time estava no caminho certo. No gol, havia vários jogadores do Flu no ataque, trocando passes de forma organizada.

Foi um gol que o naturalista Alexander von Humboldt (1769-1859), chamaria de “pintura da natureza.” O jogo em si, por sinal, mostrou que tal definição é válida para o futebol também. Esse conceito busca lugares que reúnem todas as características da biosfera juntas.

Nesta partida, ocorreu algo semelhante. Ela foi um microcosmos das váriaveis do futebol: derrota, vitória, convicção, sorte, paciência, verdade, ilusão, justiça, injustiça, talento, tática, gols.

Nesta roda de fogo, muitas vezes a falta de paciência e de resultados esconde uma biodiversidade futebolística rica em qualidade e consistência.
Neste jogo, os gols foram saindo, em função da tática ousada. Escancararam o quanto o futebol pode ser injusto e depende dos resultados. No fim, o Fluminense venceu por 5 a 4 e, mais do que isso, convenceu. Construiu o resultado com jogadas rápidas, criativas, confiantes.

O gol nunca será um detalhe, mas, muitas vezes, quando ele não acontece, esconde um trabalho bem feito. Com a vitória histórica , de quase demitido e ingênuo, Diniz terminou o jogo exaltado.

E, para quem o viu perdido naquele momento em que fechou os olhos, ele muito bem poderia estar pensando em como virar o placar. Para dizer, orgulhoso, no fim da partida, o que ninguém imaginava: “Eu já sabia.”

Comentários

*Os comentários aqui publicados são de responsabilidade dos usuários e não representam a opinião do site.