Saber identificar e agir quando uma criança engasga pode fazer toda a diferença. Entre as 777 crianças que morreram no Brasil por engasgo em 2017, 581 tinham até 1 ano de vida. Trata-se do tipo de acidente que mais mata crianças até essa idade no país, segundo dados da ONG Criança Segura.

A pediatra neonatologista Débora Passos, da Maternidade Pro Matre Paulista, em São Paulo, explica que essa faixa etária é a mais suscetível à chamada sufocação por alimento porque seu sistema digestivo ainda está em desenvolvimento.

“A criança ainda não tem maturidade de defesa no trato digestivo. Quando um adulto engasga, ele tosse, um reflexo para expulsar o alimento da traqueia, mas a criança, muitas vezes, não tem esse reflexo estabelecido”, afirma.

Já a pediatra Célia Regina Bocci, do Sabará Hospital Infantil, em São Paulo, ressalta que, como bebês ainda não têm pré-molares, os dentes da mastigação, eles não conseguem mastigar e alguns alimentos, como uva, milho e amendoim, escorregam para a traqueia.

“Não são apenas alimentos, peças de brinquedos soltas também merecem atenção”, diz. “A criança engasga porque o objeto ou alimento é maior que a traqueia. Pipoca só é recomendável após os 4 anos. No caso de carne, o ideal é que comece com pedaços desfiados, depois pequenos e só então um pouco maiores. É importante que a criança coma sentada e não em pé, correndo. É preciso aprender que tem que mastigar para engolir”, completa.

Ambas as especialistas concordam que, principalmente ao ser aplicado o método BLW (Baby-Led Weaning), o “desmame guiado pelo bebê”, é preciso que a criança seja “altamente” supervisionada enquanto se alimenta.

Nessa nova abordagem, utilizada na introdução alimentar aos 6 meses, a comida não é dada com colherinha na boca, mas acessada pela própria criança, que pega os alimentos, em cortes maiores, com as mãos.

Nem sempre o bebê tosse

O primeiro passo para salvar uma criança que esteja engasgada é saber identificar quando o problema acontece. Nos recém-nascidos, os sinais são mais sutis, segundo Célia. “Quando o engasgo é parcial, ele respira mais rápido, fica ofegante e chora. Se chora, significa que a respiração está presente. Já no caso de engasgo total, ele não tosse nem chora, fica roxinho e mais molinho”, explica.

A orientação é manter a calma, ligar para a emergência (SAMU 192 ou Bombeiros 193) e iniciar imediatamente, nos dois casos, a conduta para reverter o problema. “Nunca sacuda a criança nem use a mão para retirar o alimento da garganta, pois pode acabar empurrando-o mais para dentro”, alerta.

Técnica aplicada varia conforme a idade

As médicas explicam que há duas técnicas para desengasgar uma criança: uma específica para bebês até 1 ano e outra para crianças a partir dessa idade.

A primeira consiste em colocar o bebê de bruços, deitado sobre seu antebraço. O antebraço pode estar apoiado em sua perna ou outra superfície firme. A cabeça do bebê deve estar mais baixa que o corpo. Com a mesma mão, use os dedos médio e indicador para manter a boca dele aberta enquanto com a outra, você dá cinco tapas em suas costas, entre os ombros.

Em seguida, vire o bebê para você, deitado no mesmo apoio, e faça cinco compressões com os dedos médio e indicador no meio do peito, entre os mamilos. Afunde os dedos de dois a três dedos de altura, o que corresponde a cerca de 4 cm. Se ele chorou ou tossiu, significa que desengasgou. Caso contrário, repita o primeiro procedimento. Segundo Débora, o ideal é que já se encaminhe para o hospital ou recorra à ajuda do Corpo de Bombeiros enquanto faz essa segunda tentativa. “Às vezes, precisará de uma broncoscopia [exame que remove objetos estranhos do pulmão]”, diz.

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