25 de setembro de 2020
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    Durante pandemia vendas de antidepressivos cresceu cerca de 21%

    Em março, abril e maio de 2019 pouco mais de 20 milhões de caixas de antidepressivos e estabilizadores de humor foram vendidas, o mesmo período de 2020 ultrapassou as 24,5 milhões de unidades

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    Desde abril deste ano, a vida da atriz Paula Valentine, de 23 anos, tem um novo componente: uma dose diária de clonazepam, medicamento usado para prevenir crises de ansiedade. O hábito dela engrossa as estatísticas que mostram que as vendas de antidepressivos e estabilizadores de humor no Brasil cresceram 21,1% no acumulado de março, abril e maio de 2020 em comparação com o mesmo período do ano passado. O estudo, feito pela empresa IQVIA com a mesma comparação, ainda aponta aumento de 14,4% na venda de tranquilizantes.

    Enquanto em março, abril e maio de 2019 pouco mais de 20 milhões de caixas de antidepressivos e estabilizadores de humor foram vendidas, o mesmo período de 2020 ultrapassou as 24,5 milhões de unidades. Já de tranquilizantes, as vendas passaram de 7,9 milhões para 9,1 milhões no mesmo período. Considerando-se ambos os tipos de medicamento, março registrou o maior crescimento em relação ao mesmo mês do ano anterior, com 21,3% de aumento para tranquilizantes e 31,4% para antidepressivos e estabilizadores de humor.

    O período analisado coincide com o primeiro trimestre da pandemia no Brasil, crise que gerou instabilidades emocionais por motivos que vão desde o medo de contrair a Covid-19 até a insegurança financeira. A análise é da psiquiatra Patrícia Peralta, que conta experimentar no dia a dia os impactos do novo coronavírus na saúde mental dos pacientes. “A tendência é que haja mesmo maior prevalência de transtornos mentais neste período, mas, felizmente, vemos também a procura por tratamento, que justifica o aumento nas vendas de medicação”, pondera.

    Para o psicoterapeuta Weslley Carneiro, além das razões mais aparentes para o surgimento de sintomas de ansiedade e depressão, há outros elementos encobertos, como a exposição demasiada a informações e notícias e a convivência atípica tanto de pessoas que dividem a mesma casa quanto de um indivíduo consigo mesmo.

    “Outra questão é a ideia de que as redes sociais vendem de hiperprodutividade, de que a pessoa vai conseguir desempenhar suas funções com a mesma capacidade de antes, mas devemos nos atentar para o fato de que nem todo mundo consegue adaptar o que fazia para dentro de casa”, detalha.

    Sinais

    Os primeiros sintomas que apareceram em Paula foram insônia e crises de pânico, que vieram 15 dias após o início do isolamento. Ela já tinha iniciado um tratamento havia três anos e o interrompeu, mas precisou voltar a tomar a medicação em abril deste ano, quando viu que a carga imposta pela quarentena à sua saúde mental estava pesada. “As coisas foram ficando muito complicadas, acumulando-se, afetando meus relacionamentos e meu trabalho. Então, voltei a procurar meu psiquiatra”, relata. Desde então, ela usa o clonazepam, conhecido popularmente como Rivotril.

    “É uma pandemia dentro da pandemia”

    A ansiedade vivida por muitos brasileiros, para os especialistas, vem da falta de precedentes da situação imposta pela pandemia. “Nós não somos preparados para viver com essa expectativa de morte tão visível durante muito tempo, todos temos um limite de estresse que somos capazes de suportar, e, quando se torna muito prolongado, como estamos vivendo agora, a chance de adoecimento é muito maior. É uma pandemia dentro da pandemia”, explica a psiquiatra Patrícia Peralta.

    Além de gatilho para o surgimento de novos sintomas, Patrícia aponta a pandemia como fator preponderante para agravar problemas preexistentes. A educadora Elisangela Rodrigues, de 42 anos, teve a dose de fluoxetina triplicada pela médica após apresentar piora em sintomas da depressão, que ela trata há cerca de um ano. “Devido à instabilidade emocional, eu precisei parar a faculdade, parei o curso que estava fazendo de Libras, tive redução de benefícios no trabalho, e tudo mexeu muito comigo e me deixou mais instável”, conta.

    No sentido de evitar que o paciente se torne dependente das medicações, Weslley Carneiro defende que haja um trabalho de psicologia envolvido no tratamento. “É como se a gente estivesse construindo uma casa. Enquanto estamos construindo, é importante ter elementos pra sustentar, como pedaços de madeira, por exemplo, mas chega um momento em que a casa precisa estar estruturada para que aquela sustentação provisória seja retirada”, compara.

    Dicas de cuidados

    Especialistas indicam cuidados essenciais para se evitar o adoecimento mental durante a pandemia:

    Meditação: ajuda a se evitar pensamento excessivo e tornar os processos diários mais conscientes.

    Alimentação saudável.

    Exercícios físicos: mesmo em casa, eles devem ser praticados.

    Rotinas de trabalho e estudo: objetivo é não esgotar limites para descanso.

    Cultivo de redes de apoio e de relacionamentos: tanto virtuais quanto em casa.

    Abertura para o diálogo: não se devem esconder sintomas que fazem mal.

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