13 de maio de 2021
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    Pandemia faz cidades do interior do país colapsarem, e população pressiona prefeitos

    De norte a sul, cidades do interior do país viram seus sistemas de saúde colapsarem no começo deste ano em meio à segunda onda da Covid-19,

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    © Getty Images

    “Hoje é que eu tô vendo o que é Covid. Comparado a isso, ano passado a gente não tinha nada, não. E não sabemos quando vai parar. É como se a gente estivesse com os olhos vendados partindo para uma guerra, sem saber o que o inimigo pode fazer”.

    É assim que o prefeito Isaú Fonseca (MDB), da cidade rondonense de Ji-Paraná, no meio da Amazônia, define a situação da pandemia que esgotou o sistema hospitalar da região.
    A mais de 3.000 km dali, na outra ponta do país, o prefeito Jorge Pozzobom (PSDB), de Santa Maria (RS), usa expressão parecida. “É um inimigo invisível e traiçoeiro, que está agora muito mais fortalecido”, diz ele, na cidade onde há mais internados do que leitos de UTI.

    De norte a sul, cidades do interior do país viram seus sistemas de saúde colapsarem no começo deste ano em meio à segunda onda da Covid-19, em muitos casos muito mais devastadora do que a primeira.

    Sem recursos, sem vacinas, sem vagas, sem oxigênio e agora até sem remédios, prefeitos por conta própria impõem restrições e fecham suas cidades –e são cobrados por isso.

    É o caso de Patos de Minas, a 400 km de Belo Horizonte. Nos piores momentos da pandemia no ano passado, em julho e dezembro, a cidade, de cerca de 153 mil habitantes, tinha 40 novos casos confirmados da Covid-19 por dia, em média. Fora desses dois momentos, raras vezes essa taxa passou de 20.

    Nesse intervalo, venceu a eleição Luís Eduardo Falcão (Podemos), presidente de uma associação comercial e então contrário às medidas de fechamento da cidade. Ele próprio havia se tratado com cloroquina, remédio considerado ineficaz para a Covid-19, em outubro. “Achei que deveria usar todas as armas e naquele momento entendi que não havia tanta certeza sobre a eficácia ou não”, diz.

    Já na cadeira de prefeito, viu disparar o número de casos e a média diária chegar a 300 em fevereiro. E a região inteira entrou em colapso, e cidades como Coromandel e Carmo do Paranaíba precisaram pedir socorro ao Corpo de Bombeiros para remover pacientes de helicóptero para cidades distantes que ainda tinham vagas.

    No meio de fevereiro, Falcão impôs toque de recolher noturno e fechamento de comércios. Em março, veio decreto do governo Romeu Zema (Novo), com mais isolamento em toda a região.

    A conta chegou para o prefeito, que foi cobrado por comerciantes. Vídeo de um jornal local mostra os manifestantes pedindo que, para permitir a reabertura, a prefeitura imponha um protocolo de “tratamento precoce” contra a Covid, conjunto de medicamentos sem eficácia comprovada para a doença.

    De um mega-fone, o prefeito, que se tratou com cloroquina, grita aos manifestantes: “85% das pessoas chupando laranja ou tomando água vão se curar do vírus”, sob críticas dos conterrâneos.

    À Folha de S.Paulo, ele explica a mudança de posicionamento. “No hospital vejo gente que tomou esses medicamentos se agravarem, irem para a UTI, até morrerem. Milagre não é. Quem quiser tomar, fique à vontade, o médico tem liberdade para oferecer o que quiser. Agora, prefeito não receita medicamento”, diz.

    “Entendo os comerciantes, não é justo mesmo penalizá-los. E as pessoas procuram um culpado e uma solução. O culpado é o prefeito e a solução é a cloroquina. Mas não é. O culpado é o vírus e a solução é a vacina”, resume.

    O fechamento é a medida mais urgente em regiões onde a situação é grave para dar um alívio ao sistema de saúde, diz a epidemiologista Ana Luiza Bierrenbach, assessora técnica da organização internacional Vital Strategies.

    Cidades do interior podem esgotar antes das capitais porque o limite do sistema por vezes é mais rígido, diz ela. “A cidade tem 10, 20 leitos, e é isso, não tem espaço para aumentar, não tem para quem recorrer. E quando é uma referência regional, recebe pacientes de cidades vizinhas e colapsa”, afirma.

    Araraquara, no interior de SP, implementou lockdown em fevereiro, com proibição de circulação pela cidade. “As internações continuaram acontecendo, as mortes também, mas pelo menos as pessoas não vão morrer na fila esperando por um leito, desafoga a fila”, diz.

    Há pelo menos um efeito colateral dessas restrições.
    “Quando a gente fala em lockdown, tem que pensar bem em como fazer a comunicação. O termo ficou pejorativo e as pessoas estão se revoltando. Aí você coloca um bando de gente sem máscara, se aglomerando, gritando alto contra o prefeito, e acontece justamente o que você quer evitar”, diz.

    Pozzobom, prefeito de Santa Maria (RS), também foi alvo de protesto.
    “Tem carreata, manifestação, me trancaram em casa e hoje trancaram a prefeitura. E eu respondo: me tranquem aqui, só não fiquem trancados em leitos de UTI”, afirma ele, sobre a cidade de 283 mil habitantes que está com 105% de ocupação de leitos de UTI. “O que não pode é pedir para liberar rodeio hoje e amanhã pedir um leito de UTI para o pai”.

    Contrário a essas medidas, o presidente Jair Bolsonaro (sem partido) acionou o STF (Supremo Tribunal Federal) para derrubar restrições.

    Prefeito de Campinas até dezembro e presidente da FNP (Frente Nacional de Prefeitos), Jonas Donizette afirma que “o contrafogo do governo federal atrapalha. Os prefeitos e governadores ficam como os vilões, enquanto o presidente faz parecer que quer deixar todo mundo trabalhar.”

    “Na verdade, quem sente mais o fechamento é o prefeito. Não só porque conhece o comerciante e é cobrado, mas porque os impostos municipais vêm do setor de serviços, o ISS, que foi o mais afetado, já que tiveram que fechar as portas”, diz.

    Em Ji-Paraná (RO), de 130 mil habitantes, o prefeito Isaú Fonseca diz que fica mais fácil implementar medidas de isolamento quando a população começa a conhecer as pessoas que morreram. “Todo mundo aqui perdeu alguém”, diz ele.
    “Não tem vaga para nada e o oxigênio já começa a faltar”, afirma. “Ano passado o governo mandou dinheiro, mas falta esse ano. A folha de pagamento da saúde aqui era de R$ 2,5 milhões. Hoje foi para R$ 5 milhões.”

    Mauro Junqueira, secretário-executivo do Conasems (Conselho Nacional de Secretarias Municipais de Saúde), diz que a questão orçamentária é grave.

    “Até hoje o Congresso não votou o Orçamento de 2021, o orçamento trivial, para rotina, que deveria ter sido aprovado até 31 de dezembro. Com isso, o Ministério da Saúde recebeu autorização para gastar 1/18 do que gastou ano passado. Não dá para pagar a conta do mês”, diz ele.

    “No ano passado, tivemos R$ 42 bilhões para as prefeituras em recurso extraordinário para a saúde, e a pandemia não estava no grau que estamos vendo hoje. Este ano, para o primeiro trimestre, que acaba em dez dias, liberaram R$ 2,8 bilhões, não é nada”, continua.

     

    Junqueira afirma que as cidades do interior sofrem com a falta de profissionais, especialmente intensivistas, especialistas em atender pacientes nas UTIs.

    Começa a preocupar também a disponibilidade de oxigênio hospitalar, como em Ji-Paraná, sobretudo em hospitais menores, que não têm tanques do gás e são abastecidos com cilindros.
    “Tem lugares onde o oxigênio de um mês acaba em três ou quatro dias. Teve cidade no Ceará indo até hospital grande encher o tubo de oxigênio na mão. Não é o correto a se fazer, mas, em um momento de crise, você precisa dar um jeito para o paciente não morrer”, diz.

    Na quinta-feira (18), a FNP oficiou o governo federal sobre a falta de oxigênio e também sobre a falta de medicamentos para sedação de pacientes intubados em todo o país.

    Na divisa com o Paraguai e a 428 km da capital, Corumbá (MS) já sofre com a falta desses remédios. “Nem a rede privada está conseguindo comprar. Em Campo Grande, tem grandes hospitais com estoque para 20 dias, mas cidades menores só têm para 5 dias”, afirma Rogério Leite, secretário de Saúde da cidade de 112 mil habitantes.

    Ele também reclama da falta de médicos e enfermeiros especializados em cuidados intensivos. A cidade viu em janeiro os índices chegarem a nível similar ao pior momento do ano passado, em agosto e setembro, que foi controlado com aumento da fiscalização de aglomerações.

    Mesmo com a queda de casos, os hospitais estão quase lotados, porque a cidade recebe pacientes de toda a região. Das 18 vagas de UTI, apenas 1 está livre.