
Um estudo coordenado pela Escola de Enfermagem da UFMG revela que o consumo abusivo de álcool cresceu entre adultos que vivem nas capitais do Brasil, principalmente entre as mulheres, tendência que afasta o país da meta internacional de redução prevista até 2030.
A pesquisa analisou dados de 2006 a 2023 do sistema Vigitel, abrangendo mais de 750 mil entrevistados Segundo a coordenadora da pesquisa, Débora Malta, o indicador monitora o “consumo abusivo do álcool”, caracterizado por quem consumiu, nos últimos 30 dias e de uma única vez, “quatro ‘drinks’ ou mais em uma única ocasião no caso de mulheres ou cinco ‘drinks’ ou mais em uma única ocasião no caso de homens.
A pesquisadora destaca que o uso excessivo está ligado a fatores culturais: “Busca-se dizer que a forma que o brasileiro tem de celebrar e de comemorar é sempre usando a bebida alcoólica. Isso é socialmente aceitável”, afirma
Crescimento entre mulheres e a influência do marketing
O aumento foi mais expressivo entre as mulheres, cuja taxa praticamente dobrou no período, passando de cerca de 7% para 15%. Entre o público feminino, o crescimento foi registrado em 23 capitais, com maior prevalência em estados como Mato Grosso do Sul, Bahia e Sergipe.
Para Malta, o marketing de produtos feitos para esse público tem papel importante no crescimento. “Existe toda uma indução, existe um marketing muito dirigido para essas mulheres, inclusive com produtos específicos”, explica.
Para a pesquisadora, a indústria utiliza mensagens direcionadas e lideranças femininas, tanto na grande mídia quanto nas redes sociais, para estimular esse hábito.
Riscos à saúde e metas da ONU
O estudo reforça que o álcool está associado a mais de 20 causas de doenças e mortes, como câncer, doenças cardiovasculares e acidentes Débora Malta é enfática ao citar a Organização Mundial da Saúde: “A OMS adverte: Não há nenhum nível seguro de consumo de álcool”
Esse cenário coloca o Brasil em uma posição difícil perante os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS) da ONU, que preveem uma redução de 10% no consumo até 2030. Para isso, a taxa total deveria chegar a 15,5%. No entanto, com base nas tendências atuais, a projeção é de 22,2% até 2030, indicando que o país está se afastando da meta.
“Em todos os cenários, verificamos que essa meta não será atingida, porque o que estamos é exatamente na contramão desse processo”, lamenta a professora
Perfil do consumo
O estudo também identificou aumento do consumo abusivo em diferentes perfis da população:
- Pessoas com 12 anos ou mais de escolaridade (de 18,1% para 24%)
- População de pele branca, negra e parda
- Moradores das regiões Centro-Oeste, Nordeste, Sudeste e Sul
A alta foi observada em quase todas as faixas etárias, com exceção de jovens entre 18 e 24 anos e adultos de 45 a 54 anos.
Caminhos para a regulação
Para reverter o avanço, que é classificado como um “problema de saúde pública” pelos altos custos ao SUS e prejuízos às famílias, a pesquisadora defende medidas regulatórias mais rígidas. Ela critica a obsolescência da legislação de 1996, que só restringe propagandas de bebidas com teor alcoólico acima de 13% de álcool etílico absoluto em volume. Com isso, “as cervejas, por exemplo, têm livre acesso para o marketing e propaganda, e isso acaba tendo um peso muito grande”.
Entre as soluções sugeridas por Malta estão:
- Revisão da lei de publicidade: Para incluir bebidas de menor teor alcoólico.
- Intervenções em eventos: “Medidas como proibir o open bar são muito bem-vindas”.
- Redução de danos: Obrigar estabelecimentos a fornecerem “gratuitamente água para o consumo”.
- Restrição de horários: Citando o exemplo de municípios que, ao proibirem a venda após as 23h, viram uma “redução das taxas de homicídio”


