Ser cadeirante em Rondonópolis ainda significa enfrentar muitos obstáculos todos os dias. Calçadas quebradas, falta de rampas, prédios sem adaptação e dificuldades no transporte público fazem parte da rotina. Para quem depende de acessibilidade, sair de casa muitas vezes exige planejamento, ajuda e paciência.
Mesmo com essas dificuldades, o esporte tem mudado a vida de muitas pessoas com deficiência.

O atleta paralímpico Renê Campos Pereira, conhecido nas redes sociais como @renepereiraremo, mora atualmente no estado da Bahia. Mesmo não sendo de Rondonópolis, sua história se tornou uma referência e inspiração para muitos cadeirantes que buscam no esporte um caminho de superação e independência.
Renê nasceu em Itapetinga, na Bahia, e desde criança sempre teve ligação com o esporte. Praticou karatê, tênis e futebol, modalidade em que mais se destacava quando era mais novo.
Depois de sofrer uma lesão que mudou sua vida, precisou recomeçar. Foi no esporte adaptado que encontrou um novo caminho. Ele começou pela natação e, em 2014, conheceu o remo, modalidade que acabou mudando sua trajetória.
Com muito treino e disciplina, decidiu apostar em um objetivo grande: chegar aos Jogos Paralímpicos em apenas dois anos. Em 2015, se tornou o melhor atleta do Brasil na modalidade e conquistou a vaga para disputar os Jogos Paralímpicos Rio 2016. Na competição, terminou em sexto lugar, um resultado importante para quem participava pela primeira vez.
Além da participação paralímpica, Renê também construiu uma carreira de destaque no esporte e hoje é dez vezes campeão brasileiro de remo, se tornando uma das principais referências da modalidade no país.
Para Renê, a maior mudança está na forma de olhar para a própria vida.
“A deficiência, mais do que uma incapacidade, pode ser uma oportunidade. O mais difícil é dar os primeiros passos. Muitas pessoas ficam se comparando com os outros, mas a melhor comparação é com você mesmo e perceber o quanto você evoluiu”, afirma.
A força que nasce da união
Em Rondonópolis, outras histórias também mostram como o esporte pode transformar vidas. Marcos, de 38 anos, vive há quase 20 anos como cadeirante depois de sofrer uma lesão medular causada por arma de fogo. Em 2012, ele passou por tratamento no Hospital Sarah, referência no Brasil em reabilitação.
Foi lá que ele conheceu vários esportes adaptados, como natação, caiaque, basquete em cadeira de rodas, bocha e tênis de mesa. A experiência mudou sua visão de vida.
Quando voltou para Rondonópolis, decidiu criar um grupo de cadeirantes para trocar experiências, apoiar quem está passando pela mesma situação e incentivar o esporte.
“Muita gente acaba ficando dentro de casa, sem perspectiva. A gente criou o grupo para ajudar quem está começando nessa realidade e mostrar que é possível seguir em frente”, conta.

Hoje o grupo trabalha para desenvolver o basquete em cadeira de rodas na cidade. Recentemente, por meio de um edital da área de esporte, conseguiram comprar quatro cadeiras esportivas. O objetivo agora é formar uma equipe.
Mais que esporte
Para cadeirantes, praticar esporte vai muito além da competição. A atividade ajuda no fortalecimento do corpo, melhora a saúde e aumenta a confiança.
Na Câmara Municipal, a vereadora Dra. Luciana Horta tem defendido ações voltadas para a saúde e inclusão das pessoas com deficiência. Entre as propostas estão iniciativas para ampliar o acesso à reabilitação e incentivar o esporte adaptado na cidade.
“O esporte para os pacientes com lesão medular é muito importante para a reabilitação física e mental, aumentando a independência funcional, a força muscular e a capacidade cardiovascular. Além de prevenir complicações secundárias, como atrofia e problemas circulatórios, a prática esportiva melhora a autoestima e promove a socialização entre o grupo e familiares, elevando significativamente a qualidade de vida. Como é o caso do Renê, que encontrou no esporte a superação por tudo que já enfrentou”, afirma.

Ainda existem muitos desafios. Faltam espaços adequados, equipamentos e mais investimentos.
Mesmo assim, histórias como a de Renê e Marcos mostram que, quando existe oportunidade, o esporte pode mudar vidas.
Para muitos cadeirantes, o esporte não é apenas atividade física, é independência, é dignidade e é a chance de viver a cidade com mais liberdade.


