
Dois jovens morreram e 20 estão em tratamento após um surto de meningite na Universidade de Kent. Os estudantes afetados pertencem a uma geração que nunca foi vacinada rotineiramente contra a cepa responsável pela doença.
Isso não se deve ao fato de não existir uma vacina. Ela existe. A Bexsero, que protege contra a doença meningocócica do grupo B (a cepa responsável pelo surto em Kent), está disponível desde 2013.
O Reino Unido chegou a se tornar o primeiro país do mundo a incluí-la em seu calendário nacional de imunização, em setembro de 2015.
Todos os estudantes universitários de hoje nasceram antes de julho de 2015, o que significa que todos eles ficaram de fora.
O NHS (o equivalente ao SUS no Reino Unido) nunca lhes ofereceu a vacina e nenhum programa retroativo foi oferecido. Uma década de estudantes passou pelo ensino superior sem proteção de rotina contra a forma mais comum de meningite bacteriana.
A decisão de não estender o programa para além da primeira infância reflete uma tensão genuína no cerne da política de vacinação.
O órgão consultivo do governo britânico para o assunto, o JCVI (Comitê Conjunto de Vacinação e Imunização), concluiu que o benefício, por mais real que fosse, não ultrapassava o limiar econômico necessário para justificar o custo.
Como acontece com muitas vacinas, o benefício vai além da pessoa vacinada. Vacine um número suficiente de pessoas e a doença fica sem hospedeiros, protegendo mesmo aqueles que nunca receberam a vacina — isso é conhecido como imunidade coletiva.
A Bexsero não funciona dessa maneira. Ela protege a pessoa que a recebe, mas não reduz a quantidade de bactérias que as pessoas carregam na garganta e transmitem a outras pessoas.
Assim, vacinar um bebê impede que ele adoeça, mas não faz nada para impedir que as bactérias circulem na população em geral.
Sem este efeito cascata para levar em conta, o JCVI considerou o benefício muito limitado para justificar a ampliação do programa.
Mas o que esse cálculo não levou totalmente em conta foi o perigo específico da vida universitária.
A bactéria meningocócica se espalha por meio do contato próximo: beijos, compartilhamento de bebidas, tosse em espaços lotados.
As universidades, com seus alojamentos, semanas de integração e boates, estão entre os ambientes mais propícios à transmissão que se possa imaginar.
Um estudo que acompanhou estudantes durante sua primeira semana em uma universidade do Reino Unido descobriu que a proporção de pessoas portadoras da bactéria na garganta saltou de menos de 7% no primeiro dia de aulas para mais de 23% no quarto dia.
Em dezembro daquele ano, em alojamentos universitários com bandejões incluídos, o número havia chegado a 34%.
Nos EUA, uma pesquisa constatou que estudantes do primeiro ano de graduação enfrentam um risco de contrair a doença meningocócica tipo B quase 12 vezes maior do que seus pares da mesma idade que não são estudantes. Morar em alojamentos universitários amplificava ainda mais esse risco.
Nada disso é novidade. A relação entre a vida universitária e o risco de meningite já é conhecida há décadas. A questão que os trágicos eventos em Kent obrigam os formuladores de políticas a considerar é se esse risco aumentado foi adequadamente levado em conta na decisão original.
Os pais que desejavam proteger seus filhos por conta própria podiam fazê-lo. Muitos deles o fizeram. Um ciclo completo da Bexsero requer duas doses para qualquer pessoa com mais de 11 anos.
Na maioria das farmácias do Reino Unido, cada dose custa cerca de £ 110 (aproximadamente R$ 770), o que leva o custo do ciclo completo a £ 220 (R$ 1440) ou mais. Algumas clínicas privadas cobram consideravelmente mais.
Como afirmou um especialista em saúde pública da London School of Hygiene and Tropical Medicine, a disponibilidade da vacinação privada cria uma situação em que o acesso depende da capacidade econômica. Essa desigualdade está se manifestando agora em tempo real.
Após o surto em Kent, as reservas para vacinação privada contra a meningite B na rede de farmácias britânica Superdrug dispararam para 65 vezes o nível normal.
As famílias que correm para marcar consultas são, inevitavelmente, aquelas que têm condições financeiras para isso. Aqueles que não têm condições ficam na esperança de que o surto não atinja seus filhos.


