
Há 33 anos, homens e mulheres caminham pelas ruas de Rondonópolis movidos pela fé, pela memória e pela esperança. São passos que carregam histórias, preces, cantos, lembranças e também marcas de lutas sociais. Ao longo de mais de três décadas, a Romaria dos Mártires deixou de ser apenas uma celebração religiosa para se transformar em uma expressão viva da cultura e da memória coletiva do município e de Mato Grosso.
É essa história que chega agora às telas por meio do documentário “Caminhos de Fé e Luta: A Romaria dos Mártires em Rondonópolis”, produzido em parceria com a Morada Filmes, produtora audiovisual de Rondonópolis, e dirigido pelo professor e pesquisador Adilson José Francisco, da Universidade Federal de Rondonópolis (UFR).

Mais do que registrar uma manifestação religiosa, o filme procura compreender o que existe por trás dos passos dos romeiros e romeiras: suas experiências, seus sentimentos, suas memórias e a maneira como a fé se relaciona com a vida cotidiana, com a história e com as lutas por justiça e dignidade.
Uma história que se tornou patrimônio de memória
As gravações do documentário começaram no final de 2025 e reúnem imagens atuais e um valioso acervo das primeiras edições da Romaria. Fotografias, vídeos e registros históricos se encontram com as imagens produzidas durante as romarias mais recentes, criando uma ponte entre diferentes gerações de participantes.
Com uma proposta de documentário participativo, o filme procura construir sua narrativa a partir das próprias pessoas que fizeram e continuam fazendo a Romaria. São romeiros, romeiras e organizadores que emprestam suas vozes à história e ajudam a revelar os diferentes significados que a celebração adquiriu ao longo do tempo.
Para Adilson José Francisco, a escolha do tema é resultado de uma trajetória que começou com registros pessoais das romarias e posteriormente se transformou em objeto de pesquisa acadêmica. “Na era da imagem e da imagem em movimento, é hora de trazer essa experiência multifacetada para a linguagem audiovisual”, afirma o diretor.
Segundo o pesquisador, a religiosidade não pode ser compreendida apenas como uma experiência privada. Ela também ocupa espaços públicos, ruas, praças, lugares de memória e participa da própria construção da história das cidades.
Fé que também se expressa como luta
A história da Romaria dos Mártires está relacionada a um período particularmente intenso da história social e política de Mato Grosso e do Brasil. Realizada em Rondonópolis desde o início da década de 1990, a Romaria surgiu em um contexto marcado pela concentração fundiária, pelos conflitos no campo e pelo assassinato de lideranças camponesas e religiosas que atuavam ao lado de indígenas, ribeirinhos, migrantes empobrecidos e outros grupos socialmente marginalizados.

Em diferentes regiões do Brasil e da América Latina, pessoas foram assassinadas por defenderem direitos, justiça social e ambiental e melhores condições de vida para populações empobrecidas. Na perspectiva religiosa que inspirou a Romaria, muitas dessas pessoas passaram a ser reconhecidas como mártires.
É justamente essa relação entre fé e vida que o documentário procura recuperar. “Um dos motes do filme é recuperar essa conexão entre o modo como as pessoas vivem a fé e a maneira como articulam essa fé com a própria vida, com as lutas por direitos, dignidade e justiça”, explica Adilson.
Nesse sentido, a Romaria aparece no filme não apenas como uma celebração do passado, mas como uma tradição que continua sendo recriada no presente.
As vozes de quem faz a Romaria
Para construir essa narrativa, o documentário acompanha as experiências de quem participa da Romaria e de quem ajuda a organizá-la. São diferentes vozes, memórias e percepções captadas no cotidiano e durante a própria celebração. A trilha sonora também procura preservar a atmosfera da Romaria. O som das músicas se mistura ao silêncio e à emoção das orações, às palavras de quem recorda histórias e ao som dos passos dos romeiros.
O resultado pretendido é uma narrativa que não apenas explique a Romaria, mas permita ao espectador sentir a experiência de caminhar, recordar, rezar e celebrar.
O olhar poético é uma das características do projeto. A câmera procura captar gestos, símbolos, rituais e emoções que, muitas vezes, passam despercebidos quando uma celebração é observada apenas como acontecimento religioso.
Memória é também identidade
Ao recuperar mais de três décadas de Romaria, o filme coloca em discussão uma questão que ultrapassa a própria celebração: o que acontece quando uma sociedade deixa desaparecer suas memórias?
Para Adilson, preservar essas experiências significa reconhecer a importância das gerações que vieram antes e das lutas que ajudaram a construir o presente. “Em um contexto de descarte do que já foi, é preciso valorizar e recuperar as experiências daqueles que nos precederam. O passado e suas lutas nos habitam”, afirma. Para o pesquisador, esquecer essas experiências significa também correr o risco de perder parte da própria identidade coletiva.
É nesse ponto que “Caminhos de Fé e Luta” pretende ir além de um simples registro audiovisual. O documentário busca transformar a memória da Romaria em uma experiência compartilhada com o público, aproximando diferentes gerações e convidando o espectador a olhar para a cidade a partir das histórias daqueles que a construíram e continuam caminhando por suas ruas.
Um filme que nasce de Rondonópolis para contar uma história maior
Contemplado pelo Edital Inventários MT, o projeto conta com apoio da Secretaria de Estado de Cultura de Mato Grosso e do Governo Federal, por meio da Lei Aldir Blanc. O lançamento do documentário está previsto para outubro de 2026.
Quando chegar ao público, o filme pretende oferecer mais do que imagens de uma romaria. Pretende apresentar uma história de pessoas, crenças, perdas, esperanças e lutas — uma história que se escreve há 33 anos pelas ruas de Rondonópolis.
Porque, quando uma multidão caminha, não são apenas os pés que se movimentam. Caminham também as memórias, as perguntas, as lutas, as esperanças e os sonhos de uma comunidade.


