
Presa por suspeita de envolvimento com facção criminosa em Mato Grosso, a missionária Rhavenna Barcelos de Almeida mantinha um relacionamento amoroso com um chefe da organização que fugiu para o Rio e compartilhava com ela informações sobre seu esconderijo e operações policiais no Complexo do Alemão.
A conclusão consta da investigação da Polícia Civil mato-grossense cujo relatório final foi obtido com exclusividade pelo Fantástico, da TV Globo, e apresentado neste domingo. Segundo os investigadores, Rhavenna e os pais, os pastores Orminda e Nivaldo de Almeida, usavam um projeto de assistência religiosa em presídios para repassar recados e lavar dinheiro do tráfico.
O traficante Jonas Souza Gonçalves Júnior, conhecido como Batman, é apontado pela polícia como um dos chefes do CV em Mato Grosso. Condenado a 49 anos de prisão, ele cumpria pena na Penitenciária Central de Cuiabá, onde a família atuava. Em setembro de 2024, passou ao regime semiaberto, com tornozeleira eletrônica. Três dias depois, rompeu o equipamento e fugiu para o Rio.
Batman entrou na lista dos criminosos mais procurados do país. Nas mensagens obtidas pela polícia com autorização judicial, ele enviou a Rhavenna sua localização no Complexo do Alemão, na Zona Norte. Segundo a investigação, os dois se encontravam com frequência na capital fluminense.
Em junho do ano passado, uma ação policial no conjunto de favelas foi assunto entre o casal. “Operação aqui hoje”, escreveu Batman. Duas semanas depois, Rhavenna recomendou: “Tomem muito cuidado, tá?”. O traficante respondeu: “Eu sempre tive tranquilo em todas as operações, mas hoje tô com o coração agoniado”.
Durante a madrugada, ele informou que havia deixado o local: “Tô em outra favela”, “Saímos de lá” e “Na estratégia”.
Os registros reunidos pelos investigadores mostram Batman com joias e cercado por homens armados. Segundo a polícia, ele também era dono de um Porsche conversível, avaliado em R$ 600 mil, no qual Rhavenna foi filmada durante um passeio.
“Tô chegando para dar uma volta nesse Porsche”, escreveu ela em uma das conversas. Em um vídeo no veículo, comentou, entre risadas: “Feliz no simples, né?”.
Encontros na Rocinha
A investigação também identificou relações entre outras integrantes do grupo religioso e traficantes. Em um áudio, uma das investigadas anuncia: “Bora para o Rio daqui a três semanas, tô liberada”. Em outro, uma mulher comenta: “É lá na casa do Batman. Nossa, todos os perigosos lá”.
Um vídeo de um churrasco na Rocinha, na Zona Sul, mostra Batman na churrasqueira, enquanto mulheres cantam um louvor. Há um fuzil no encontro. Fotografias reunidas na investigação também mostram Rhavenna e os pais com armas e na companhia de traficantes armados.
— O que mais surpreendeu as equipes de investigação foi a ligação tão próxima com membros do alto escalão da facção criminosa que atua aqui no Mato Grosso — afirmou ao Fantástico o delegado Victor Hugo Caetano, da Delegacia de Repressão ao Crime Organizado.
Ao programa, o governo do Rio informou que as forças de segurança atuam permanentemente para identificar, localizar e prender criminosos de outros estados que estejam atuando ou escondidos em território fluminense.
Acesso a presídios
Rhavenna e os pais integravam o projeto “Equipe Evangelismo Resgatando Vidas”, autorizado pelo governo de Mato Grosso a prestar assistência religiosa em presídios. A polícia começou a investigar a família após receber uma denúncia de ligação com uma organização criminosa.
Segundo o inquérito, a atividade religiosa servia de pretexto para acessar as unidades, levar celulares, transmitir mensagens e movimentar recursos da facção. A Penitenciária Central de Cuiabá, frequentada pelo grupo, abriga mais de três mil presos, entre eles lideranças do CV.
— Eles levavam recados, lavavam dinheiro, emprestavam as contas bancárias para que fosse feita a ocultação e a dissimulação de valores e tudo isso era revertido em prol da facção criminosa — disse Caetano.
Em um dos áudios, Rhavenna afirma: “Ia levar o dinheiro para você ontem. Tenho que tirar aquele dinheiro lá de casa”. No celular dela, os investigadores também encontraram vídeos de criminosos atirando. Em um registro, Batman acompanha o teste de um fuzil por chamada de vídeo.
O material inclui uma ligação em que Nivaldo mostra uma pistola à filha e faz um gesto identificado pela polícia como símbolo da facção. Em outra conversa, Orminda diz que vai a um “sítio buscar uma arma para vender”.
Rhavenna e os pais foram indiciados por organização criminosa e lavagem de dinheiro. Outras mulheres do grupo foram indiciadas por falso testemunho, sob a acusação de terem mentido, em depoimento, sobre as relações que mantinham com traficantes.
Presentes de traficante preso
A investigação aponta ainda que Rhavenna mantinha um relacionamento com Renildo Silva Rios, preso há mais de duas décadas por homicídio, tráfico e organização criminosa. Ele é apontado como um dos fundadores do CV em Mato Grosso.
Segundo Caetano, Rhavenna e os pais lavavam dinheiro para Renildo. Em mensagens a uma amiga, ela o descreveu como “conselheiro final” da facção e afirmou: “Dinheiro é o que ele tem”.
Segundo o material apresentado pelo Fantástico, o preso presenteou Rhavenna com uma pulseira de ouro e um carro. No Dia dos Namorados, acompanhou por videochamada uma surpresa preparada para ela, que incluía uma viagem ao Nordeste e uma caixa em formato de coração recheada de notas de R$ 100.
Na sexta-feira, o Ministério Público denunciou Rhavenna, Orminda e Renildo por organização criminosa e lavagem de dinheiro. Nivaldo morreu na semana passada em consequência de um câncer.
A defesa de Rhavenna informou ao Fantástico que nega as acusações que tudo será esclarecido durante o processo. A defesa de Orminda também negou qualquer participação da investigada em organização criminosa. No interrogatório policial, Rhavenna exerceu o direito de permanecer em silêncio.
A Justiça de Mato Grosso proibiu a família e outras quatro pessoas de participar da assistência religiosa em presídios. As visitas dos demais grupos cadastrados continuam. A Secretaria de Justiça informou que reforçou a fiscalização contra o uso de celulares na Penitenciária Central de Cuiabá.


