
Uma pesquisa divulgada nesta segunda-feira (13) pelo Fundo das Nações Unidas para a Infância (Unicef) aponta que a elevada taxa de cesarianas no Brasil não é resultado apenas de uma escolha individual das gestantes, mas também de fatores psicológicos, sociais e estruturais que influenciam a decisão ao longo da gravidez.
Segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS), o índice ideal de cesarianas é de até 15% dos nascimentos, percentual considerado suficiente para atender casos em que a cirurgia é realmente necessária para salvar a vida da mãe ou do bebê. No entanto, no Brasil, mais de 60% dos partos são realizados por cesariana, chegando a quase 90% na rede privada, colocando o país entre os três com as maiores taxas do mundo.
O levantamento foi realizado com base em entrevistas com 94 gestantes e puérperas e 37 profissionais de saúde em São Paulo e Belém. A pesquisa buscou entender por que muitas mulheres que inicialmente desejavam o parto normal acabam passando por uma cesariana.
Entre os principais fatores apontados estão o medo da dor, relatos negativos de familiares e amigas, falta de informações durante o pré-natal e o receio de sofrer violência obstétrica. O estudo destaca que muitas histórias compartilhadas entre mulheres descrevem experiências traumáticas de parto, marcadas por intervenções desnecessárias e falta de respeito, o que contribui para criar uma imagem negativa do parto normal.
A pesquisa também revelou diferenças entre a rede pública e a privada. No Sistema Único de Saúde (SUS), muitas gestantes relataram sentir que não têm participação na escolha da via de parto e afirmaram receber poucas orientações durante o pré-natal. Algumas também disseram optar pela cesariana para aproveitar a oportunidade de realizar a laqueadura, por desconhecerem outras alternativas contraceptivas disponíveis.
Já na rede privada, as mulheres demonstraram maior preparo sobre o parto normal e, em alguns casos, chegaram a trocar de médico após encontrarem profissionais que desestimulavam o parto vaginal. O acesso à analgesia também aparece como um diferencial importante, sendo mais disponível na rede particular e restrito em boa parte das maternidades públicas.
Como resultado do estudo, o Unicef recomenda ampliar o acesso à analgesia, fortalecer o pré-natal com informações claras sobre trabalho de parto, plano de parto e direitos das gestantes, além de incentivar a participação de acompanhantes e doulas. A entidade também defende a revisão de modelos de atendimento que favorecem cesarianas sem indicação clínica e lançou a campanha “Parto normal. Uma escolha que merece respeito”, para estimular decisões baseadas em informação e promover uma experiência de parto mais segura, humanizada e respeitosa.


