Já nos primeiros momentos de vida o mundo nos é dado pela boca, pois ao amamentar, não ingerimos apenas leite, absorvemos carinho, afeto, aconchego, cheiros, formas, cores e texturas daqueles que nos acolhem junto ao peito. Assim sendo, após algumas mamadas, nunca mais sentiremos fome apenas daquilo que nos alimenta, mas daquilo que nos nutrirá por toda nossa existência, afeto.

É neste desenrolar de fraudas, onde evidenciado a presença ou a ausência de afeto, que imprimirá em nós as múltiplas facetas da interação social e individual de cada ser, ou seja, como o individuo interage consigo mesmo e com ou demais a sua volta. Exemplo disto reside no caso da compulsão, onde o afeto é extremamente atenuado.

Ao falarmos de transtornos alimentares, precisamos entender que não estamos falando apenas de excesso de peso (real como nos casos de obesidade ou imaginário como nas anorexias e bulimias), mas de que há faltas e que precisamos aprender a conviver com elas, principalmente no que diz respeito à percepção do próprio corpo.

Leia também:  Luto e luta: todas as vidas nos importam

O desejo, que move todas as ações do ser humano, tem componentes inconscientes, e no caso daqueles que sofrem de transtornos alimentares, muitos destes componentes psíquicos acabam sendo atendidos, algumas vezes até no próprio sintoma. Neste caso, remetendo-nos à origem do problema, certamente nos deparamos com questões recalcadas, onde o indivíduo não consegue ou não sabe como lidar.

Ironicamente, podemos afirmar que grande parte dos transtornos alimentares são produtos da nossa Cultura, onde desde a infância os alimentos nos são oferecidos como prêmios (principalmente doces e guloseimas), assumindo características de companhia, consoladora e também acolhedora, utilizada ainda com a finalidade de distrair a criança ou acalmá-la. Além de reforçar em nós a idéia de que sua privação nada mais é do castigo, quem nunca ouviu a frase, mesmo que numa cena, onde os pais furiosos com o comportamento do filho e lhes dizem “suba já para o seu quarto e só desça depois do jantar”?

Leia também:  Conflito é vida!

Todavia, podemos dizer que nos casos de transtornos alimentares o predomínio da fome tem por finalidade afastar o individuo de seus reais problemas, dos quais como dito anteriormente, o mesmo não tem condições de lidar com eles. Não podemos nos esquecer que questões pessoais não é a única fonte dos transtornos alimentares, há ainda os casos que são determinados ou até mesmo os que são ocasionados pelo meio ambiente em que o individuo está inserido, dado a sua incapacidade de sobreviver aos constantes episódios de stress, que o impossibilita de expressar quem realmente ele é, de expressar sua subjetividade, ou seja, os transtornos alimentares tornam-se o último elo da enorme corrente de circunstâncias infelizes somatizadas no corpo.

Neste sentido, podemos dizer que os chamados “problemas emocionais” por muito tempo foram considerados como os principais fatores desencadeantes do processo de obesidade e dos demais transtornos alimentares, sendo muitas vezes, erroneamente, percebidos como conseqüências, ignorando fatores genéticos, culturais e ambientais. Embora tenha sido constatado que os aspectos psicológicos não se relacionam às causas da obesidade, as complicações psicológicas decorrentes da doença são comuns devido a sua interação com os fatores socioculturais.

Leia também:  Ser ou não ser? Eis o digital em questão!

Os transtornos alimentares são doenças de evolução crônica, causada por múltiplos aspectos genéticos, familiares e biológicos que interagem entre si, determinando uma predisposição individual aguardando a relação com outros fatores, como sociais e ambientais. Em geral, o caráter de evolução crônica culmina nos seguintes agravantes: hipertensão arterial e demais problemas cardíacos, disfunções respiratórias e gástricas, colesterol, diabetes dentre outras doenças, além dos típicos quadros de transtorno comportamental, como a Depressão Atípica (DA), o Transtorno da Compulsão Alimentar Periódica (TCAP) e Síndrome da Compulsão Alimentar Noturna (SAN).

Sara Gomes Prudêncio

Psicóloga

Advertisements

Comentários

*Os comentários aqui publicados são de responsabilidade dos usuários e não representam a opinião do site.