Aventura a bordo de um catamarã (barco de dois cascos) sem cabine durou 38 dias e a dupla percorreu mais de 4.000 milhas náuticas (7.400 quilômetros) da Cidade do Cabo, na África do Sul, até o Brasil

Às 12h35 deste sábado (27), na sede da escola de vela BL3, em Ilhabela, chegou ao fim uma das mais desgastantes aventuras da carreira do brasileiro Beto Pandiani e do francês Igor Bely. A Travessia do Atlântico a bordo de um catamarã (barco de dois cascos) sem cabine durou 38 dias e a dupla percorreu mais de 4.000 milhas náuticas, o que corresponde a 7.400 quilômetros da Cidade do Cabo, na África do Sul, até o Brasil.

“Foi muito mais difícil psicologicamente do que fisicamente”, logo dizia Beto Pandiani aos amigos quando a embarcação tocou nas areias da Praia da Armação. A recepção aos velejadores foi digna dessa grande expedição com mais de 500 pessoas no local, sem contar as 20 embarcações que escoltaram o Picolé, como foi batizado o barco, desde a Ponta das Canas até a praia da Armação, sede da BL3. Com celulares e máquinas fotográficas em mãos, os fãs da vela oceânica e as crianças registraram o momento na bela tarde de sol e 27 graus do litoral norte paulista.

O trajeto entre os continentes foi marcado pela falta de vento, o que mudou o cronograma da viagem inicialmente previsto para um mês. Desde o início do projeto, em 2011, a dupla alinhou todos os detalhes do barco para encontrar ondas fortes e não quebrar. Numa conta simples, em 70% do caminho a velocidade dos ventos não ajudou a impulsionar a proa do Picolé para a costa brasileira. A ansiedade da chegada, principalmente na última semana, foi, segundo os velejadores, a maior dificuldade da Travessia do Atlântico.

A viagem foi a mais ‘online’ da carreira da dupla. Diários de porto, relatórios, boletins de rádio, fotos e outros detalhes da Travessia do Atlântico eram postados em tempo real no http://travessiadoatlantico.tumblr.com/. O sucesso foi tanto que Tumblr registrou 7 mil seguidores durante a expedição.

As redes sociais foram uma ferramenta importante para o sucesso do projeto, que usou o crownfundind, uma espécie de vaquinha virtual, para captar parte do dinheiro necessário. Cerca de 700 pessoas se uniram e colaboraram com R$ 166.568,24, acima da meta estabelecida de R$ 150 mil. O valor foi usado para cobrir despesas com equipamentos, que incluíram GPS, telefones via satélite, dessalinizadores de água, alimentos liofilizados e outros mais. Mas o ‘dinheiro’ não foi o que motivou a dupla e sim as mensagens de carinho e apoio pela internet. Uma delas, em francês, ganhou o prêmio de melhor das milhares: “Chegar ao destino é um desejo, mas navegar é um prazer”, numa tradução literal para o português.

“Eu sentia a energia de todos nos momentos mais difíceis da viagem. Era impossível pensar em desistir com esse carinho, apesar de estarmos quase boiando em alto mar. Os nomes de cada um escritos no barco e no pote a bordo foram nosso combustível”, disse Beto Pandiani. “Conseguimos criar essa interação e quem compartilhou nossos posts, incentivou, participou da vaquinha e divulgou de alguma maneira foi um embaixador da Travessia do Atlântico”.

Com português perfeito, apesar de ser francês e de escrever seus posts em inglês, Igor Bely insistiu na dificuldade enfrentada. Juntos, os parceiros de outras aventuras como a Travessia do Pacífico já passaram mais de 100 dias e quase 30 mil quilômetros em barco aberto e sem conforto. “A primeira e a última semanas foram as mais difíceis dos 38 dias da Travessia do Atlântico. No começo, quando zarpamos da Cidade do Cabo, o mau tempo e o mar bem agitado deram as caras. Tivemos de ser mais concentrados e focados. Na parte final, o cansaço bateu e a ansiedade de chegar logo para colocar o pé na areia e rever os amigos e família era potencializada pela falta de vento”.

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Os velejadores tentaram uma parábola no caminho e ficar sempre de proa para o Brasil, mas essa estratégia resultou na passagem por regiões de ventos fortíssimos, principalmente no Cabo da Boa Esperança, água muito fria, tubarões, navios mercantes e ondas gigantes. A rota foi paralela à costa da África do Sul e da Namíbia. A dupla Passou pela Costa dos Esqueletos, que é a porção de terras desérticas do continente. Morbidade e beleza se confundiam. “Em um determinado momento, nos primeiros dias, poupamos o barco por causa do vento forte, ou seja, deixamos sem vela e navegar pelo mastro era suficiente”, relatou Betão Pandiani. Depois desse trecho inicial, os aventureiros chegaram ao ponto mais ‘complicado’ que foi a falta de ventos.

Atrito a bordo? – Nenhum. Cada um conhece o outro e sabia de suas funções no catamarã. “O barco é um ambiente explosivo para criar um atrito entre os tripulantes. Nesse período não houve nenhuma desavença entre nós. Foi um sentimento de companheirismo mútuo. Fazer o veleiro andar é um detalhe instintivo, mas contornar os problemas emocionais não é natural e tivemos que aprender ao longo das expedições”, recordou Beto Pandiani.

“A característica do Igor a bordo é fundamental. Sua bagagem de conhecimento náutico adquirido dentro de um barco, nos ajuda a ter esse resultado. Todos os detalhes e soluções dentro de uma embarcação ele consegue fazer com maestria”.

Sobre as novidades para 2014, Betão quer apenas esperar. “Difícil pensar nas próximas viagens, só sondagens por enquanto. Quando estamos em uma expedição como a do Atlântico, a única intenção concreta é ter energia para chegar ao destino”.

O barco – O Picolé foi aprovado no teste! O barco de 24 pés (oito metros) é feito todo em carbono para suportar condições adversas. O veleiro de dois cascos foi construído no estaleiro alemão Eaglecat, mas foi na Cidade do Cabo que o português Manuel Mendes, dono da marina que recebeu a dupla, ajudou a dar um jeito em pequenos detalhes que poderiam colocar a perder o projeto da Travessia do Atlântico. O modelo foi adaptado às experiências de viagem da dupla e é híbrido, ou seja, não existe outro igual no mundo.

“É difícil chegar um modelo ideal de catamarã. Podemos dizer que não houve quebras e molhou bem menos comparando com os outros barcos. Ficar seco faz a diferença em tanto tempo de viagem. Outro ato aprovado foi que a frente dele, a proa, não enterra na onda”, disse Beto Pandiani. “A cada barulho, batida de onda, a gente ficava atento. Nós sentimos o barco”.

Igor Bely deu seu ponto de vista. “Quando pegava mar de lado, nós ficávamos apreensivos. É uma característica de um catamarã. Esse modelo é bom com mar liso e vento favorável. O aprendizado do Pacífico foi fundamental, mas o Picolé é mais forte”.

A novidade veio dar à praia – “Tá vendo aquele barco vermelho ali na frente?”, disse uma mãe para a filha de no máximo quatros anos. “Ele veio lá do outro lado do mar, de outro continente e a gente veio aqui só pra ver os marinheiros chegarem”. O interesse pela expedição começou antes do início da tarde deste sábado. Com uma ampla rede de amigos nas redes sociais e uma divulgação bem distribuída, a chegada de Pandiani e Bely na Travessia do Atlântico se transformou na principal atração do dia em Ilhabela, tradicional cidade da prática da vela no Brasil.

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Os 500 fãs dos velejadores acompanharam as dificuldades que os dois passaram no Oceano Atlântico pela internet e foram recepcioná-los com muita energia e alegria na sede da BL3. Fotos para Facebook, Instagran e até autógrafo os navegadores deram. Saudade para uns, admiração para outros e novidade para a maioria, que viu pela primeira vez um catamarã sem o mínimo de conforto que transportou dois aventureiros por mais de 7.400 quilômetros. Chamava muito a atenção as duas pequenas barracas instaladas na proa que serviram de dormitório para os velejadores.

O prefeito Antônio Colucci, o capitão Alexandre Motta de Sousa, da Capitania dos Portos, em São Sebastião, patrocinadores, o anjo da guarda dos velejadores na Cidade do Cabo, Manuel Mendes, e os curiosos mudaram a paisagem da Praia da Armação. Antes de aportar, o barco Picolé foi escoltado por uma flotilha de 20 barcos, lanchas e monotipos, liderados pelo Orson Mapfre, um dos ícones da vela oceânica brasileira, comandado por Carlos Eduardo de Souza e Silva, o “Kalu”.

O primeiro discurso, precedido pela Aquarela do Brasil de João Gilberto, misturou saudade e agradecimento. Sempre fazendo reflexões, Beto Pandiani destacou a importância do apoio de cada amigo, dos dias sem vento e do legado. “A vontade que tenho é de abraçar um por um, de olhar nos olhos e agradecer a oportunidade de ter vivido esta emoção tão intensa nestes últimos meses. A viagem deu certo e o Picolé agora tem uma casa: Ilhabela. Quero que este barco sirva de inspiração para as crianças e que passe a ser um barco escola, ensinando aos pequenos os valores que se precisa para ir ao mar. Preciso devolver tudo que recebi, e esta é uma das maneiras que vejo”.

Depois de cumprimentar cada amigo antigo ou novo, a dupla foi conversar com a imprensa no hotel Armação dos Ventos. Esgotado o assunto, veio a melhor parte. A primeira refeição quente dos últimos 38 dias, que incluiu arroz com coco, cação, filé mignon, muqueca de peixe, farofa, purê de banana e muito Red Bull.

Logo depois, Pandiani e Bely foram descansar porque na noite do sábado estava programada uma grande festa no hotel para comemorar o feito. Beto Pandiani, responsável por uma sugestiva e criativa playlist da expedição (ele colocava a música do dia em cada post que escrevia na internet) seria o DJ.

Beto Pandiani e suas aventuras – Desde 1993, velejar deixou de ser um hobby para se tornar profissão na vida de Beto Pandiani. A partir disso o velejador tem colecionado aventuras incríveis e histórias inesquecíveis, enfrentando marés, tempestades e outras adversidades para chegar ao destino final.

Em 1994 Betão organizou sua primeira expedição, que foi chamada de “Entre Trópicos”. Ele zarpou de Miami para a Ilhabela em 289 dias no mar. Em 2000 foi a vez da “Rota Austral”, partindo do Chile, cruzando o Cabo Horn – ponto alto da expedição – até a Baía de Guanabara, no Rio de Janeiro, em 170 dias. A “Travessia do Drake”, em 2003, saiu de Ushuaia e cruzou a passagem entre a América do Sul e a Antártica. Foram 45 dias que deram a Beto Pandiani e Duncan Ross, seu parceiro de viagem, o título de primeiros velejadores a chegarem à Península Antártica em um barco sem cabine.

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Em 2004 foi a vez de ir da Flórida à Nova Iorque, na regata Atlantic 1000, a mais longa prova para catamarãs do planeta. Resultado foi acima do esperado, um segundo lugar na competição. Já em 2005, na “Rota Boreal”, foram três meses velejando de Nova Iorque até Sisimiut, na Groenlândia, enfrentando as terríveis condições climáticas polares. Entre 2007 e 2008, junto com Igor Bely, Beto Pandiani atravessou o Oceano Pacifico, partindo do Chile e chegando à Austrália. Foram 17 mil quilômetros percorridos, muitas semanas sem ver terra e mais um título: o de primeiros velejadores do mundo a cruzar o Pacífico Sul em um barco sem cabine.

Perfil de Beto Pandiani – Brasileiro, 55 anos, formado em administração na Puc-SP
O santista Roberto Pandiani, há 18 anos realiza expedições de alta performance pelos mais temidos mares do mundo a bordo de catamarãs sem cabine. Filho do também velejador italiano Corrado Pandiani, conquistou prêmios nacionais, internacionais e coleciona marcas vitoriosos na história da vela mundial. A primeira virada na carreira profissional foi deixar um estágio na Pirelli, quando cursava administração na Puc-SP. Depois, atuou como empresário do entretenimento.

Durante os anos 1980 e 90, Pandiani foi proprietário de diversas casas noturnas que badalaram as noites paulistanas: Singapura, Aeroanta, Clube Base, Olivia e Mr. Fish, entre outros negócios. No final dos anos 1990, deixou o ramo do entretenimento para assumir a vela como profissão e negócio, passando a trabalhar exclusivamente com o esporte que é a paixão de sua vida. As expedições de Roberto Pandiani originaram cinco títulos pela Editora Terra Virgem: “Entre Trópicos”, “Rota Austral”, “Travessia do Drake”, “Rota Boreal”, “Travessia do Pacífico” e um livro de histórias: “O mar é minha Terra”, pela Editora Grão.

Atualmente tem ministrado palestras sobre planejamento, gerenciamento de risco, superação de resultados e trabalho em equipe para grandes empresas, entre elas Caloi, Credicard, Reebook, USP, Bank Boston, Atos Origin Brasil, Unibanco, Citibank, Votorantim, Medial Saúde, Cia Vale do Rio Doce, Novartis, Banco Itaú e HSBC.

Perfil de Igor Bely – Francês, 29 anos, formado em engenharia mecânica em Lyon, França
Nascido na Ilha da Reunião, no Oceano Índico, Igor viveu seus primeiros 18 anos a bordo do veleiro de seus pais, Sophie e Oleg Bely, conhecendo parte do mundo e aprendendo quatro línguas, que hoje fala fluentemente: francês, português, inglês e espanhol. Fez sua primeira viagem à Antártica com 2 anos de idade e aos 3 anos foi personagem da reportagem de TV “Igor na Antártica”, realizada pela então Rede Manchete.

Com mais de 200 mil milhas (400 mil km) navegadas, tem em sua trajetória mais de 20 expedições à Antártica e a regiões polares como Groenlândia, Labrador, Geórgia do Sul, Alaska e Cabo Horn. Participou como apoio de duas expedições polares do velejador Roberto Pandiani (Travessia do Drake e Rota Boreal) e foi também foi velejador na Travessia do Pacifico.

A Travessia do Atlântico teve o patrocínio de Semp Toshiba, apoio de Mitsubishi, Red Bull e Certisign. Os colaboradores foram Reebok, BL3, Sta Constância, Azula, North Sails e Track and Field.

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