Troféus nem sempre são reluzentes. No caso de Luciano Burti, o “troféu” que recebeu durante o GP da Fórmula 1 em Silverstone está quebrado, sujo e todo arranhado. Mesmo assim, ganhou um lugar especial em uma prateleira no escritório de sua casa em Itaim, São Paulo. O “troféu” em questão é o capacete que ele usava no gravíssimo acidente que sofreu em Spa-Francorchamps em 2001, quando entrou com sua Prost embaixo de uma proteção de pneus a quase 300km/h. E nada mais justo do que guardar a peça com carinho, afinal, foi ela que salvou a vida do paulista.

– Vou colocá-lo em minha coleção de capacetes onde tem peças minhas da época de Ferrari e Prost e também de amigos como Rubinho, Schumacher, Felipe, Button. É um lugar que conta muito da minha carreira. Vou colocar lá. Pensei até em guardar entre meus troféus, afinal, não deixa de ser um troféu. Muita gente pode pensar que o capacete é uma lembrança negativa do acidente. Mas vejo pelo lado positivo: ele salvou minha vida. Se não fosse ele, minha história poderia ter acabado ali – conta Burti, hoje comentarista de F-1 da TV Globo.

A batida aconteceu na quinta volta do GP da Bélgica de 2001, no dia 2 de setembro. Piloto da Prost, Burti largou em 18º. Na quinta volta, ao tentar ultrapassar Eddie Irvine, da Jaguar, na velocíssima curva Blanchimont, foi tocado. O bico de seu carro quebrou e prendeu embaixo do assoalho fazendo o paulista virar mero passageiro até atingir a 280km/h a proteção de pneus.

Leia também:  Corinthians vence o Fluminense de virada e se torna campeão brasileiro pela sétima vez

O capacete, juntamente com o “headrest” (peça ao redor do cockpit para dar mais proteção à cabeça do piloto) foram entregues pela Federação Internacional de Automobilismo (FIA) a Burti durante o fim de semana do GP da Inglaterra de F-1. O casco está todo arranhado e sem um pedaço da frente, quebrado com o impacto. As peças estavam guardadas desde o acidente em um armazém na França. O galpão será fechado e, por isso, a entidade resolveu devolver algumas delas aos pilotos.
– Está exatamente do jeito que saiu da minha cabeça, com a sujeira do dia do acidente. Está com as sobreviseiras e até um pouquinho de lama. Eles me entregaram em um plástico bolha. Foi muito bem conservado. Da para ver as marcas dos pneus que vieram para cima de mim. E da para ver o quanto minha cabeça foi pressionada. O quanto capacete foi esmagado – disse, impressionado.

Historicamente, como todo acidente grave, a batida de Burti serviu para a FIA melhorar aspectos de segurança na Fórmula 1, como a cobertura das proteções de pneus e a proibição de furo nos capacetes para a passagem de tubos de bebida e fios de comunicação de rádio.

Leia também:  Cuiabá vence e se classifica para grande final

– Como eu bati com o capacete nos pneus, eles identificaram algumas falhas. Antes, só havia cobertores nos pneus em alguns pontos do circuito. Como ali não era um ponto comum de batida, os pneus estavam apenas empilhados. E os pneus bateram na minha cara. Se tivesse cobertor, eu não teria entrado por dentro da proteção. Desde então, toda proteção de pneus, em qualquer ponto do circuito, é coberta. Além disso, também era comum fazer furo para passar caninho de bebida, para passar rádio. E ali ficou claro que meu capacete quebrou não só pelo impacto, mas pelo furo para passagem de bebida. Aquele furo tirou resistência do capacete e o fez quebrar. Hoje é proibido fazer esses furos.

O ex-piloto de 39 anos descreveu qual foi a sensação ao se deparar com a peça:

– Quando peguei o capacete, chorei. Eu já tinha visto fotos dele, mas quando o vi de verdade na minha frente foi muito chocante. Pensei:

“Nossa. Não era para eu ter escapado dessa”. Quando mostrei para minha mãe, ela também teve um baque.

Leia também:  Inscrições abertas para estadual de tênis em Cuiabá

Mas apesar da emoção ao ver a peça, Burti destaca que não tem nenhuma memória do dia do acidente. O brasileiro, na época com 26 anos, foi levado de helicóptero para um hospital universitário próximo à cidade de Liége, onde ficou dois dias em coma induzido.

– Minha lembrança do acidente é zero. Eu não lembro nem da largada. Minha primeira lembrança foi uns três dias após o acidente, acordando e falando com meus pais no hospital. Mas são poucas lembranças, só flashs. Passei por um período longo de memória fraca. Revi o acidente uma semana depois. Como não guardei nenhuma memória ruim, não tive trauma de rever as imagens. Foi uma sensação muito louca quando as revi. Não lembro, então parece que não vivi aquilo. Parece que é outra pessoa batendo. E a sensação que bate é pensar “esse cara morreu. Não é possível que tenha escapado”. A única coisa que me sensibiliza muito quando vejo a batida é imaginar o que minha mãe e meu pai passaram naquele momento, principalmente agora que sou pai – disse Burti, hoje pai de Henrique, de 4 anos, e Manuela, de 3.

 

Advertisements

Comentários

*Os comentários aqui publicados são de responsabilidade dos usuários e não representam a opinião do site.