A Sauber se encontra em tamanha dificuldade financeira que não seria difícil vê-la em semelhante mórbida situação de Caterham e Marussia – que, por estarem sob as leis inglesas, passaram a administradores legais e ainda teimam em sobreviver. A pindaíba suíça chegou ao ponto de fazer com que a produção do carro de 2015, o C34, ficasse paralisada por falta de material e só fosse retomada nos últimos dias.

O GRANDE PRÊMIO apurou uma série de informações sobre o estado da escuderia que denotam e expõem o caos e, em maior escala, a crise da F1 atual.

Não é segredo que a Sauber tenha vivido em 2014 seu pior ano dos mais de 20 em que está na categoria. Sem nenhum ponto, o vermelho do rubor foi mais evidente ao terminar atrás da própria Marussia no Mundial de Construtores. O negócio foi turbulento desde o início, quando se verificou que o carro tinha três problemas crônicos: motor, peso e bico. À receita, coloque uma pitada generosa de pilotos que não colaboraram no desenvolvimento, Adrian Sutil e Esteban Gutiérrez.

Em relação ao motor, a coisa tinha de ser resolvida junto à Ferrari. Para se achar 40 cv, a solução foi até primitiva: aumentar os radiadores. Sobre peso e bico, pouco se pôde fazer porque a Sauber não tinha como mexer no carro, pobre que estava. Daí Sutil aparecer cadavérico e Gutiérrez estar em formato de boneco de Olinda para deixarem o conjunto mais leve. Mas a asa dianteira era a questão principal.

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Estudos na Sauber identificaram que o fálico bico frontal foi tão mal feito que representava uma perda de 15% na aerodinâmica do C29. Cada peça custa em torno de US$ 50 mil – imagine, então, a dor de cabeça e no bolso que dava quando eram quebrados: R$ 130 mil no ralo. Uma nova asa dianteira custa, segundo tabela de homologação da FIA, US$ 500 mil ou R$ 1,3 milhão. Para efeito de comparação, as equipes grandes como Mercedes, McLaren e Red Bull chegam a conceber quatro unidades por temporada; nunca que os coitados helvéticos iam conseguir trocar a sua.

Sem um patrocinador principal e com uma bomba de quatro rodas na pista, a Sauber foi colecionando dívidas. Não à toa, apelou no fim do ano para dois pilotos que tinham de jorrar grana para o velho Peter. De Felipe Nasr e Marcus Ericsson vieram no total € 40 milhões, R$ 120 milhões para arredondar. Absolutamente tudo foi usado para pagar os credores. Os US$ 10 milhões – R$ 26 milhões – que a FIA deu pela premiação, se assim pode dizer, pelo décimo lugar no campeonato igualmente bateram na conta e viraram fumaça.

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A situação falimentar só não piorou porque a Ferrari tem sido condescendente. Parceira de longa data, os italianos usam como moeda de troca o túnel de vento da Sauber e assim deixa passar o débito pelos motores que cedeu em 2014. O carinho se estende: nesta sexta-feira (22), vai entregar toda sua unidade de potência para que a Sauber exista. O fire-up – casamento do motor com o chassi – está programado para a segunda que vem.

A expectativa da Sauber se deposita em empréstimos que vier a conseguir com instituições de seu país e no trabalho incessante, 24/7, de cerca de 320 pessoas. É neste cenário em que vai dar sequência à produção do C34, numa euforia para aprontar um carro aos trancos e barrancos para tentar levar a Jerez. Na projeção mais otimista, o modelo novo seria posto no caminhão rumo à Espanha no dia 27. Mas, como diz a música, é improvável, é impossível, ver a simpática esquadra treinando apropriadamente na primeira semana de fevereiro na pista da Andaluzia – onde o GRANDE PRÊMIO vai estar para cobrir tudo ‘in loco’.

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E intramuros, o discurso é realista: a Sauber vai ser a pior equipe da temporada 2015. Não é nem de perto a estreia que Nasr vem sonhando para sua carreira. Mas é o preço caro que se paga, literalmente. Procurada, a Sauber ainda não respondeu ao GP — e assim que o faça, as declarações serão acrescidas nesta reportagem.

Também é certo e sabido que não é apenas a Sauber a única a sofrer. A Force India também não quitou as parcelas pelo uso dos motores Mercedes. Ontem, foi ao México arrotar alguma pompa para mostrar patrocinadores locais e a pintura; carro novo que é bom, não há e não vai ficar pronto para Jerez. A Lotus vem com mudanças gerais, possivelmente na cor e eventualmente até no nome. Daí já se nota como andam as coisas por Enstone. E por tudo, compreende-se que, quando Bernie Ecclestone vem a público para negar a crise na F1, suas palavras se tornam tanto ou mais piada do que as coisas que pensa sobre seu negócio e a vida no geral.

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