Em 8 de janeiro de 1800, um menino nu, com rosto e pescoço cobertos de cicatrizes, apareceu nos arredores da aldeia de Saint-Sermin na província pouco povoada de Aveyron, no sul da França Central. O menino, que tinha apenas um metro e trinta e sete de altura, aparentava ter 12 anos de idade. Foi visto por várias vezes durante os últimos dois anos e meio, escalando árvores, correndo de quatro, bebendo água dos córregos e coletando raízes e frutos. Quando o menino de olhos escuros chegou a Saint-Sermin, ele não falava, nem respondia à fala.

Como um animal acostumado a viver solto, rejeitava alimentos preparados e arrancava as roupas que as pessoas tentavam colocar nele. Parecia claro que ele tinha perdido os pais, ou tinha sido abandonado por eles, mas era impossível saber a quanto tempo isso tinha acontecido. O menino apareceu durante uma época de efervescência intelectual e social, quando uma nova perspectiva científica estava começando a substituir a especulação mística. Os filósofos discutiam questões sobre a natureza dos seres humanos – questões que se tornariam fundamentais para o estudo do desenvolvimento humano. (Papalia, 2008, p. 45)

São inatas ou adquiridas as qualidades, o comportamento e as ideias que definem o ser humano? Qual a importância do contato social durante anos de formação? A ausência de contato social pode ser superada? O estudo de uma criança que havia crescido isoladamente poderia ajudar a explicar o impacto relativo da “natureza” (as características inatas de uma criança) e da “experiência” (criação, linguagem, educação e outras influências da sociedade)?

Após observação inicial, o menino, que veio a se chamar Victor, foi enviado a uma escola para surdos-mudos em Paris, onde ficou sob os cuidados de Jean-Marc-Gaspar Itard, um ambicioso jovem de 26 anos praticante da ciência emergente da “medicinal mental” ou psiquiatria. Itard acreditava que o desenvolvimento de Victor tinha sido limitado pelo isolamento, que ele precisava aprender o que as crianças da sociedade civilizada normalmente aprendiam. Então Itard levou o menino para sua casa. Durante os anos seguintes, realizou uma série de procedimentos na tentativa de “educar” Victor.

Quando o estudo terminou, Victor – agora incapaz de cuidar de si mesmo, como fazia quando vivia ao ar livre – foi viver com a Senhora Guérin, até morrer em 1828, como pouco mais de 40 anos. Por que Victor não correspondeu às expectativas de Itard? Sugeriu-se que o menino fora vítima de um dano cerebral, de autismo (transtorno de ausência de responsividade social) ou ainda de graves maus tratos nos primeiros anos de vida. Os métodos de Itard poderiam ter sido inadequados. O próprio Itard veio a acreditar que os efeitos do longo isolamento não poderiam ser totalmente superados e que Victor fosse velho demais, especialmente para o aprendizado da língua.

Embora a história de Victor não forneça respostas definitivas para as perguntas que Itard se propôs a explorar, ela é importante, porque foi uma das primeiras tentativas sistemáticas de estudar o desenvolvimento humano. Desde a época de Victor, aprendemos muito sobre como as pessoas se desenvolvem, mas os cientistas do desenvolvimento ainda estão investigando questões fundamentais, como a importância relativa da natureza e da experiência. A história de Victor dramatiza os desafios e as complexidades do estudo científico do desenvolvimento humano.

O campo do desenvolvimento humano constitui-se do estudo científico de como as pessoas mudam, bem como das características que permanecem razoavelmente estáveis durante toda a vida. O desenvolvimento humano tem ocorrido, evidentemente desde que os seres humanos existem, mas seu estudo formal é relativamente novo. Desde o século XIX, quando Itard estudou Victor, os esforços para compreender o desenvolvimento das crianças gradualmente se expandiram para estudos de todo o ciclo vital. (Papalia, 2008, p. 47)

Referência
Papalia, D. E. (2006) Desenvolvimento Humano. 8. ed. Porto Alegre: Artmed.

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