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    O narcisismo nas eleições

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    Imagem: AGORA com Vanzeli O narcisismo nas eleições

    “Quase todo mundo conhece a história original (grega) sobre Narciso: um belo rapaz que, todos os dias, ia contemplar seu rosto num lago. Era tão fascinado por si mesmo que, certa manhã, quando procurava admirar-se mais de perto, caiu na água e terminou morrendo afogado.
    No lugar onde caiu, nasceu uma flor, que passamos a chamar de Narciso.

    “O escritor Oscar Wilde, porém, tem uma maneira diferente de terminar esta história. Ele diz que, quando Narciso morreu, vieram as Oréiades – deusas do bosque – e viram que a água doce do lago havia se transformado em lágrimas salgadas.

    “‘Por que você chora?’, perguntaram as Oréiades.

    “’Choro por Narciso’.

    “’Ah, não nos espanta que você chore por Narciso’, continuaram elas. ‘Afinal de contas, todas nós sempre corremos atrás dele pelo bosque, você era o único que tinha a oportunidade de contemplar de perto sua beleza’.

    “’Mas Narciso era belo?’, quis saber o lago.

    “’Quem melhor do que você poderia saber?’, responderam, surpresas, as Oréiades. ‘Afinal de contas, era em suas margens que ele se debruçava todos os dias’.

    “O lago ficou algum tempo quieto. Por fim, disse: ‘eu choro por Narciso, mas jamais havia percebido que era belo. Choro por ele porque, todas as vezes que ele se deitava sobre minhas margens, eu podia ver, no fundo dos seus olhos, a minha própria beleza refletida’”.

    O texto acima foi extraído do prólogo do livro “O Alquimista”, de Paulo Coelho, e mostra o quão nociva é a adoração de si próprio: ela nos impede de enxergarmos o próximo. Cegados pela a egolatria, passamos a viver sem considerar os irmãos, os companheiros de caminhada, sem nos importarmos com o outro, e acabamos perdendo a alteridade e a empatia social, desconsiderando qualquer coisa ou qualquer um que não seja o “eu”.

    Isso é potencializado quando aplausos e elogios são prestados com certa frequência. Sei como é isso. Em uma de minhas atividades profissionais, como apresentador de televisão, acabo recebendo muito afago das pessoas que têm e querem demonstrar carinho por mim.

    Ao passar dos anos, percebi que alguns colegas de profissão acabaram desenvolvendo uma certa dependência desse reconhecimento, e passaram a viver em função disso. Pensavam que estavam produzindo popularidade, mas estavam apenas intoxicando suas almas. O carinho do público é bom e importante, mas deve ser entendido dentro do contexto correto: os fãs amam o apresentador, não o homem que sou. Este é amado pela família que tenho.

    Essa intoxicação da alma, que a transforma no ego, pode levar uma pessoa a achar que é Deus e que, por isso, pode qualquer coisa. E não pode! Nosso viver é contingenciado pelo viver das pessoas com as quais nos relacionamos. Mas a megalomania fomentada pelo aplauso fácil faz realmente uma pessoa acreditar, por exemplo, que pode se tornar presidente da República, o mais alto posto de uma nação, sem dizer exatamente o que fará com o país, sem apresentar um plano, uma estratégia ou meta, para nosso rumo depois das eleições.

    É o que estão fazendo os dois líderes nas pesquisas eleitorais. Como escrevi no editorial de ontem, preocupam-se apenas em xingar um ao outro e não conversam com a nação, não dizem a que vieram. A popularidade massiva de ambos os está cegando, dando-lhes imagens distorcidas da realidade. Acreditam mesmo que não precisam apresentar propostas durante as eleições. Bem, pelo menos nenhum dos dois o fez até aqui. E, para o cúmulo do absurdo, já afirmaram que não participarão dos debates eleitorais. Espero que isso mude.

    Como eleitor, não quero dar “cheque em branco” para nenhum político, senão escolher aqueles de melhor proposta para o Brasil, para depois acompanhar a execução do mandato e o cumprimento delas. Como eu, muitos irmãos brasileiros não definimos o voto por essa razão. Chega de Narcisismo eleitoral!

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