Os fãs de Rubens Barrichello (ou pelo menos a parcela que se interessa em pesquisar mais a fundo sobre sua carreira) costumam conhecer uma famosa história de que o recordista em GPs disputados na F1 negociou profundamente com a McLaren para se tornar piloto da tradicional equipe inglesa em 1995, deixando a Jordan.

Pois a Biblioteca de Documentos da Indústria do Tabaco, compilada virtualmente no site da Universidade da Calfórnia, nos Estados Unidos, contém alguns documentos relacionados à possível transação, que, por muito pouco, não foi concretizada. É neste acervo que também estão contidos vários detalhes dos contratos de Ayrton Senna e Nelson Piquet com a Lotus, em 87 e 88, já divulgados pelo Tazio nos últimos dois dias.
Como todos hão de lembrar, a McLaren ainda era patrocinada pela Marlboro em 94, marca de cigarros vinculada à gigante Philip Morris. Um conjunto de duas cartas trocadas entre dois executivos da empresa, John Hogan (vice-presidente de marketing)* e Peter Schreer (presidente da PM na América Latina)*, de junho daquele ano, evidenciam como as duas partes tinham “interesse significativo” pelos serviços do brasileiro. Por isso, várias conversas chegaram a ser feitas com o chefão do time, Ron Dennis, em relação à sua contratação.

Uma das opções discutidas era tirar Barrichello da Jordan antes mesmo do fim da temporada que vigia, para que ele disputasse “três ou quatro corridas com um carro melhor/mais rápido”, e, assim, fosse testado em sua capacidade de lidar com a pressão de defender uma escuderia grande. Ele entraria no lugar do inglês Martin Brundle, com quem a McLaren vinha firmando acordos corrida a corrida.
Essa possibilidade, inclusive, chegou a ser divulgada pelo comentarista da Rede Globo, Reginaldo Leme, durante o GP do Canadá de 94. O que não havia sido revelado até hoje era o entrave para que essa mudança se concretizasse: na resposta de Schreer à primeira missiva de Hogan, o presidente latino-americano da Philip Morris confirma ter sido informado pelo empresário do piloto à época, Geraldo Rodrigues, que Barrichello estava amarrado em uma “taxa de transferência” de aproximadamente US$ 3 milhões junto à Jordan.

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Schreer explica então que, como a equipe e a própria Marlboro tinham dúvidas sobre se valia a pena ou não pagar tamanha quantia por um piloto que ainda não tinha experiência em uma equipe de ponta, Ron Dennis iria fazer, pessoalmente, uma oferta pela liberação antecipada de Barrichello ao chefe do paulistano, Eddie Jordan, tentando reduzir o valor original. Ele chegou até a cogitar um valor: US$ 1 milhão.

“Ron vai assumir a liderança [das negociações] com Eddie Jordan, para descobrir se ele aceitaria a ideia, talvez por uma quantia fixa de dinheiro (vamos dizer um milhão). Se der certo, deduziríamos a maior parte deste valor da taxa de transferência. Se não, teremos pago pelos serviços de pilotagem [somente naquele período]. Ele acredita que tem boas chances de convencer Eddie, e vai nos reportar sobre as evoluções nas negociações”, declarou.

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O primeiro documento, datado de 6 de junho de 94, também revela a ideia de que a McLaren fundasse um time B na F1, tal qual a Red Bull faz com a Toro Rosso nos dias de hoje. O objetivo seria ajudar na formação de jovens pilotos, tal qual a STR em relação à matriz, bem como desenvolver componentes e tecnologias a serem aproveitadas pela esquadra principal posteriormente. É bem provável que o plano tenha sido abortado devido aos custos, já que era visto de forma entusiástica pelos envolvidos, como uma “forma inovadora de se administrar os negócios na F1″.
O resto da história já é público. Dennis e Jordan não entraram em acordo e Barrichello aguardou a expiração de sua opção de renovação com a equipe irlandesa para assinar um pré-contrato com a McLaren, ao final de 94. Depois, sem garantias de que não seria relegado ao papel de segundo piloto, ou mesmo de que iria atuar como titular, o paulista acabou voltando atrás e renovando com sua antiga casa. O próprio Rubens justificou as motivações numa entrevista ao Roda Viva, da TV Cultura, no início de 95. A explicação dele pode ser vista a partir dos 6:15 do vídeo linkado acima.

Ferrari já se interessava por Barrichello em 95

Outro documento encontrado no acervo da UCSF, de 11 de setembro de 1995, mostra como Barrichello também foi cogitado para correr na Ferrari no ano seguinte, o primeiro em que Michael Schumacher esteve na equipe e quatro antes de sua ida efetiva para Maranello (para lê-lo na íntegra, em inglês, basta clicar aqui). Trata-se de uma carta enviada pelo presidente da Philip Morris na região europeia*, Walter Thoma, ao vice-presidente de estratégia de negócios corporativos* da marca, Louis Carnilleri.

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Pelo conteúdo da missiva, a escuderia italiana tinha em mente quatro opções de segundo piloto para o alemão na temporada 96: o próprio Rubens, Johnny Herbert (que já dividia a garagem da Benetton com o germânico), David Coulthard e até Nicola Larini (reserva do time em anos anteriores, mas que sequer estava competindo na categoria).

Curiosamente, o nome de Eddie Irvine, ex-companheiro de Rubens na Jordan e que acabou por ser o piloto efetivado à função, permanecendo nela de 96 a 99, sequer é citado. Quanto ao brasileiro, ele voltaria a conversar com os italianos em 1999, já na fase da Stewart, e enfim formaria dupla com Schumacher pelas seis campanhas seguintes, acumulando dois vice-campeonatos (2002 e 2004), nove vitórias e 11 pole positions.

O texto também explicita que o primeiro acordo de Schumacher com Maranello valia apenas por duas temporadas, e que o vínculo de patrocínio entre a Marlboro e as duas equipes apoiadas pela marca, Ferrari e McLaren, terminaria ao final de 96, havendo a necessidade de renegociações. No fim das contas, a empresa deixou os ingleses de lado e preferiu investir mais pesado na parceria Schumacher/Ferrari.

 

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