Dia desses, numa visita à casa dos pais em Resende (RJ), uma fita de vídeo colocou Rapha novamente dentro de uma pista de bicicross. Sentado no sofá da sala, relembrava os tempos em que vivia em cima de uma bicicleta, deixando adversários para trás e ainda ganhando dinheiro por isso. Não tinha nem completado 10 anos e já fazia parte de uma equipe profissional, ganhando títulos na categoria infantil. Ficou em quinto lugar num Mundial, levou duas Copas Pan-Americanas e três Brasileiros. Aos poucos, o interesse pela modalidade foi diminuindo. E ficou completamente em segundo plano por culpa da Geração de Ouro de 1992. Rapha acompanhou toda a campanha pela TV e colocou na cabeça que também vestiria aquela camisa, que também realizaria o sonho olímpico.

Naquela ocasião, já jogava vôlei na escola e durante seis meses tentou convencer o pai a levá-lo até São Paulo para participar de uma tradicional peneira. A cartada final foi pedir a viagem como presente de Natal. Seu Antonio Carlos não teve como negar. Pediu folga no trabalho por uma semana, mas esperava voltar bem antes disso. Cinco mil meninos brigavam por cinco vagas. E o filho foi ficando, ficando até garantir uma delas. Sairia de casa aos 13 anos, para ficar durante uma década no extinto Banespa – foi do mirim ao profissional – e depois partir para a Europa, onde permaneceu por mais 12. A chance na seleção apareceu no ano passado e foi agarrada com unhas e dentes. Nesta sexta-feira, ele substituirá Bruninho, que se recupera de uma contusão no dedo indicador da mão direita, na formação titular contra a Finlândia. Com duas vitórias em dois jogos no Grupo B, o Brasil busca seu terceiro triunfo no Mundial da Polônia, às 15h15 (de Brasília). A partida terá transmissão do SporTV e cobertura em Tempo Real no GloboEsporte.com. Os assinantes do SporTV também podem acompanhar todos os lances pelo SporTV Play.

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– Eu estou muito feliz de estar aqui. No ano passado estava com o dedo quebrado e tenho que agradecer à comissão técnica por ter me levado para treinar em Saquarema mesmo machucado. Não podia tocar na bola, tinha acabado de operar o dedo. Fui convocado para a Copa dos Campeões em novembro e começou ali uma nova história. Não posso fazer corpo mole, dou sempre meu máximo porque desde os 13 anos pedi a Deus para estar aqui. Estou muito motivado e quero dar minha contribuição. Fico chateado por ser assim, com Bruno machucado, e espero que ele volte logo. A gente precisa do grupo bem. Quero realizar meus sonhos aqui – disse o levantador de 35 anos, eleito o melhor da posição no Mundial de Clubes de 2014.

Sonhos que passam pela conquista do título mundial e também pelo ouro nas Olimpíadas do Rio, em 2016. Gostaria de repetir aquela cena no alto do pódio, vivida por Maurício, Tande & Cia. nos Jogos de Barcelona.

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– Eles foram a minha maior motivação mesmo sem saber. Depois que passei na peneira, tive a oportunidade de ouvir histórias sobre eles e de vê-los de perto. Tinham jogos da seleção, e eu era boleiro. Peguei autógrafos do Maurício e do Marcelo Negrão e tirei fotos com todos. Passaram uns anos e tinha Negrão como companheiro de Ulbra. Era incrível. Pude mostrar a camisa que ele tinha assinado. Até hoje nos falamos e trocamos experiências.

A caminhada de Rapha não foi fácil. Deixar a família para trás ainda adolescente exigiu coragem. Depois seguiu para mais longe. As portas se abriram na Rússia, em seguida na Itália, onde ganhou respeito.

– Eu abri mão de muita coisa, tinha que me firmar. Por várias vezes me perguntei: “Será que vale a pena? É assim mesmo?” Na Rússia, tive mais dificuldades do que coisas boas. E meu pais e irmãos falavam para eu passar por cima, me incentivavam. Também passei por situações hilárias. Eu morava em Resende, uma cidade pequena, e nunca tinha andado de ônibus e metrô. Lembro que um dia estava em São Paulo, fui voltar para casa e precisei pegar o metrô. Carregava uma mala marrom de couro com duas bermudas, dois pares de meia e uma camisa. Vi aquela fila enorme e apertei um monte de botão. Não sabia que tinha que comprar algo para passar ali. Uma senhora me viu assustado e me ajudou. São obstáculos que a gente supera e acha bacana. Minha mãe vivia ligando para a escola para não me deixar sair da linha. Era professora e me acompanhava sempre de longe. Se eu vacilasse, ela dizia que ia me fazer voltar para casa de vez. Meus pais sempre deram um jeito de me acompanhar.

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Na próxima temporada, terão mais chances de abraçá-lo. Rapha defenderá o Taubaté. Após 22 anos fora do Brasil, quer que os dois filhos cresçam perto dos avós. Estarão a 50 minutos de distância. E terão tempo para relembrar as histórias do menino que vivia pedalando e voltava sempre sujo de barro.

– Quando fizeram uma pista lá na cidade, meu irmão tinha acabado de comprar uma bicicleta mais competitiva. Começou a correr. Fui comprar, só de brincadeira, capacete, roupa e luvas. Corri, levei muitos tombos, comecei a ganhar e a coisa ficou mais séria. Foi precoce, foi uma surpresa. Mas eu precisava viajar para competir e minha família não tinha como ficar indo todo fim de semana para São Paulo. Achei que fosse fazer carreira, mas antes não tinha no programa da Olimpíadas como agora. Isso desmotivava. Vejo os vídeos hoje e tenho medo de tudo o que fazia. Não consigo nem empinar a roda da frente! Andar de bicicleta agora, só com meu filho sentado na cadeirinha na frente – riu.

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